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Feito a mão

Talento, criatividade e tradição pelas mãos de artesã, em Missão Velha

Por Alana Soares/Agência Miséria
Em 21/09/2018 às 10:05
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"Essa profissão é pra quem tem coragem”, afirma a artesã Maria Socorro (Foto: Guto Vital/ Agência Miséria)

As mãos de Corrinha estão treinadas para o ofício. Após 29 anos, ela trabalha intuitivamente e não precisa de esforço algum para lembrar qual movimento vem depois do outro. Seu trabalho é seu artesanato, tradição secular perpetuada pela oralidade. Não está nos livros, muito menos é ensinado nos programas de Tv.

Com o barro em mãos, Maria Socorro do Nascimento faz arte antes mesmo de concluir a peça.

Na zona rural de Missão Velha, Maria Socorro, 42, mantém sozinha uma olaria onde produz, por dia, de 6 a 8 itens de barro. Tigelas, jarros e potes diversos, copos, filtros de água, sinos, colares, terços. Ainda não apareceu uma demanda que a famosa Corrinha artesã não atendesse.

Sem torno, ajudantes ou instrumentos modernos, as únicas ferramentas que a artesã usa são as que fez com as próprias mãos. Enquanto gira em torno do barro, literalmente dando voltas, modela o que será a base do pote e, com facilidade invejável, amassa, puxa e modela a argila com os dedos habilidosos.

Corrinha explica o passo a passo com linguajar fácil. “Agora vamos alisar o pote e fazer o bucho dele”, avisa. Não precisa de medidor para saber se a espessura de um lado está igual a do outro, enquanto desliza a mão por dentro, puxando a argila, avantajando e afinando as paredes. “O fundo precisa ser firme. Se deixar ‘vento’, quebra no forno. Se deixar fofo, racha. Se deixar pedra, estoura”, denuncia os macetes.

Suas fotos e história ilustram dois livros do artesanato popular -  “Mãos que fazem história”, de Cristina Pioner e Germana Cabral e a coletânea “Ceará feito a mão: artesanato e arte popular”, organizado por Gentil Barreira – e suas peças foram para Brasília representar o artesanato caririense.



A artesã conheceu seu talento aos 13 anos, na comunidade Passagem de Pedra, em Missão Velha. Enquanto “esperava a série voltar para a escolinha”, lembra com lamento a educação atrasada, foi aprender com uma tia a tradição do barro. “Se a senhora me ensinar, vou botar a mão na massa para ver no que dá”, reproduz.

Em Passagem de Pedra, seis olarias dominavam a produção e venda local. Maria Socorro começou amassando barro, tirando pedra e, com sorte, fazia um pote por dia. Quando “dominou o pote”, foi reconhecida a maior produtora, entregando 12 por dia.

Após 17 anos trabalhando de “meia”, montou sua primeira olaria a base de madeira e palha. Cresceu com ajuda do financiamento do pequeno agricultor. Madeirite e Taboado. Depois, tijolo e cimento. A vida melhorou.

Passou a produzir mais e frequentar feiras de artesanato. Comerciantes e feirantes gostaram do seu estilo, comprando seu trabalho e revendendo pelo Nordeste. Conciliou o trabalho com os estudos e concluiu Serviço Social em faculdade particular.

O crescimento estagnou nos últimos anos. Ela considera a crise financeira e a mudança de posicionamento do barro na vida das pessoas. “Antes o pote era utilitário e hoje é mais decorativo”, reflete. Para não cair, passou a fabricar “mensageiros do vento”, panelas, bonecos decorativos e gnomos de jardim. “É preciso ser criativo”, avisa.

Enquanto modela canecas de argila, Corrinha aponta para a fornada de potes, botijas, moringas e filtros aguarda a compradora de Recife aparecer para recolher. “Não posso reclamar da vida que tenho. Sou feliz porque gosto do que faço”, declara com sorriso frouxo que frequentemente aparece na conversa.

“É uma pena que ninguém quis aprender comigo”, lamenta. “Ainda tentei, mas essa profissão é pra quem tem coragem”. Ela que o diga. Seu corpo pequeno e magro engana fácil quem não vê a força necessária para levar adiante o peso da tradição.

(Foto: Alana Soares/Agência Miséria)



Mão na Massa Artesanato
Maria Socorro
Telefone: (88) 9 9619-3610

 

 



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