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Especial

Um hippie, um crente e um militar revelam suas histórias na praça Padre Cícero

Por Alana Soares/Agência Miséria
Em 23/09/2018 às 06:30
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3 personagens e suas curiosas histórias na praça Padre Cícero. Na foto, Domingos Sávio, artesão paulista, vende na praça há 16 anos (Foto: Alana Soares / Agência Miséria)

Cartão postal, ponto turístico e central de encontros, a praça Padre Cícero, em Juazeiro do Norte, recebe 10 mil pessoas por dia (fora da romaria). Não existiria Juazeiro sem a praça e suas histórias. Ali foi, é e ainda será palco de muitos causos, confusões, romances e festejos protagonizadas por anônimos sem plateia ou aplausos. Mas quem são essas pessoas? Quais os nomes? Quais são suas histórias?


O Orelhão: Cid Sousa

Cid diz ser um professor de Biologia pouco convencional. Ministra aulas em domicílio e usa o nome de Deus para explicar o processo celular, a respiração e a transformação de alimento em energia. Chegou em Juazeiro aos 5 anos, quando seu pai “ouviu o chamado de Deus” e mudou-se Princesa Isabel, na Paraíba, para a terra do Padre Santo. Cid visita a praça Padre Cícero todos os dias “quando o toque de Deus o convida”.

Mora na rua abaixo da praça e viu as três fases mais significativas do lugar. Ali, senta-se à sombra e pratica sua atividade favorita: ouvir conversas alheias. “Gosto muito de ouvir e sou ruim de falar, mas quando falo só falo da palavra e do amor de Deus”, explica. Quando o vi, estava lendo a xerox de um livro sobre ocultismo. Sua orelha empinada denunciou a atenção à minha conversa com outro homem. Tomei como um convite.

Na praça, Cid Sousa realiza sua atividade favorita: ouvir conversas alheias (Foto: Alana Soares / Agência Miséria)



O Hippie: Domingos Sávio

Dos 52 anos vividos, Domingos Sávio acumulou 26 de trabalho na praça Padre Cícero. Ele é um homem forte, com cabelos cacheados, pele bronzeada e de olhar simpático que vende artesanato de pedra, couro, coco, bronze, aço e moldados. É o único hippie na praça e por isso se diz discriminado por alguns colegas de território e fiscais ambientais.

Dos anos de trabalho, viu cenas assustadoras e se chocou com a violência que assolava a praça quando as gangues rivalizavam. Por essas e outras que apoia a educação e a paz entre as pessoas. Sonha em ver uma “Universidade na favela”.

Nascido em São Paulo, veio para o Crato cuidar da mãe, que tem raízes aqui, e a quem cultiva grande carinho. “Ela ainda me chama de Dominguinhos”, diz sorrindo. Antes disso viajou pelo país. Morou na praia, conheceu o Mato Grosso do Sul, atravessou fronteiras de carona.

Gosta muito das romarias, época em que vende bem e é bem tratado, revela. Já foi até Canindé de carona em ônibus de romaria, trocando ideias e histórias de estrada. “O romeiro é gente feliz. Vez por outra aparece um oferecendo cerveja pra gente beber junto”, diz.


O Militar: Wilson Silva

Francisco Wilson Silva, 72, estava sozinho no banco da praça quando o encontrei. Disse ser um “funcionário da natureza” por hoje em dia trabalhar apenas dando de conta das belas paisagens da aposentadoria. Em outros tempos serviu nas Forças Armadas, onde fez carreia. É natural de Nova Olinda, mas desde os 17 mora em Fortaleza. Diz que visita Juazeiro do Norte há 10 anos, mesmo preferindo se acomodar no Crato quando vem ao Cariri.

“Em Fortaleza não sento na praça como sento aqui. Aqui as pessoas são mais bonitas, mais simpáticas e mais alegres”, relevou. Naquela tarde, aguardava um amigo que não sabia se iria chegar. Tinha vindo do Crato para ver a reforma da praça, que aprovou. Sentado ali lembrou das noites de paquera, brincadeiras e forró pé de serra que viveu. “Não tem nada melhor que beber uma cervejinha com os amigos, paquerar na praça e ouvir Luiz Gonzaga”, disse saudosista.

Cartão postal de Juazeiro do Norte, a praça Padre Cícero foi reinaugurada este ano, com projeto que resgata tempos áureo (Foto: Alana Soares / Agência Miséria)

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