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Documento digitalizado
Acervo recém-aberto mostra artistas e presidentes fichados após ditadura
Reprodução da ficha do piloto Ayrton Senna no órgão (Foto: Reprodução)
Em 02/04/2013 às 07:56

Presidentes da República, artistas, atletas e religiosos continuaram sob monitoramento no Brasil mesmo após o fim oficial da ditadura militar (1964-1985).  É o que revela consulta ao acervo digitalizado do Departamento de Comunicação Social (DCS), criado em 1983, após a extinção do Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (Deops).
 

Os dados do DCS, fechado em 1999,  e do Deops, podem ser consultados no site  Memória Política e Resistência  do acervo do Arquivo Público do Estado de São Paulo. Ao todo, foram digitalizados cerca de 1 milhão de páginas de documentação pela Associação dos Amigos do Arquivo Público de São Paulo em parceria com o projeto Marcas da Memória da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça.


José Sarney, presidente entre 1985 e 1990, é citado como ex-presidente e tem sua movimentação acompanhada em recortes de jornais recolhidos entre 1987 e 1993. Eles tratam de reações de Sarney sobre o início do seu governo e a morte de Tancredo Neves.
 

O DCS monitorou também o governo Collor (1990-1992). A ficha que identifica Fernando Collor de Mello como presidente da República relata um recorte de jornal de 22 de maio de 1991 em que Collor afirma que greve tem motivação política e não será geral.  O último item da mesma ficha relata em 9 de setembro de 1992 um recorte de jornal sobre a missa no Rio que reuniu mil pessoas em apoio ao então presidente. O DCS aponta também um plebiscito  organizado pela União Municipal dos Estudantes em 13 escolas de Santo Andre, no ABC, em julho de 1992 sobre a permanência ou não de Collor no poder.  A partir de setembro de 1992 uma ficha exclusiva passa a acompanhar o impeachment do presidente, que renunciou em 29 de dezembro.
 

O cantor e compositor Tom Zé é citado em ficha de 1985. Nela, o DCS cita reportagem do "Jornal da Tarde" que afirma que o cantor iria dar apoio e estaria presente  em evento do PC do B.  Na ocasião, o partido organizava um ato "pela legalidade" em São Paulo.
 

Tom Jobim é citado em ficha datada de 1992.  Nela é citada reportagem do "Jornal do Brasil" que mostra que o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil Sérgio Zveiter questionava o compositor pela declaração de que "todo advogado é ladrão". Em anotação posterior, o DCS registrou que Tom Jobim tinha afirmado que tudo não passava de um mal-entendido.
 

Quem também é citado é o cartunista Laerte Coutinho, em registros do ano de 1983 e 1984. À época, ele foi citado por ilustrar uma publicação do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo.


Atletas

O nome do piloto de F1 Ayrton Senna também aparece nos documentos. Na ficha, que acrescenta ao paulistano a qualificadora da "Bi-campeão de Fórmula 1", o órgão faz anotações sobre duas notícias de jornais sobre o atleta.


Ao citar "O Estado de S.Paulo" e "Folha de S. Paulo", o DCS anota que a família de Senna vivia clima de tensão após ter sido ameaçado de sequestro pelo "bando Comando Vermelho". À época, Senna tinha proteção da polícia Civil e Militar por causa das ameaças, segundo o órgão. Nas anotações, não há referências a manifestações políticas ou envolvimento partidário.


Sócrates

O ex-jogador Sócrates, que morreu em dezembro de 2011, é citado uma vez em janeiro de 1988. O DCS cita reportagem do jornal “Folha de S.Paulo” que afirma que o ídolo corintiano era cotado para entrar para a política em Ribeirão Preto, no interior paulista. “O nominado está tão integrado à vida local que tem seu nome cogitado pelo PT para se candidatar à Prefeitura”, diz o documento.
 

O atleta participou da campanha pelas Diretas Já e, em 1984, foi um dos principais idealizadores da Democracia Corintiana, que reivindicava para os jogadores mais liberdade e mais influência nas decisões administrativas do clube.
 

Rabino Sobel

Em 1983, o rabino Henry Sobel aparece em sua primeira ficha no DCS. Até o ano de 1992, há quatro anotações sobre o líder religioso. Primeiro, o órgão da repressão decidiu anotar a participação dele em um acampamento no Largo de São Francisco contra a fome e o desemprego. A participação de Sobel, em 1984, em um debate sobre a tortura também foi registrado.
 

Jair Bolsonaro

O deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ), famoso por suas declarações polêmicas contra homossexuais, foi monitorado no início de sua carreira política, no fim da década de 1980, até 1993. Em novembro de 1988, o Departamento de Comunicação Social mostrava preocupação com a relação do então recém-eleito vereador na Câmara do Rio e os militares.
 

O órgão cita reportagem que afirma que o político, por ser capitão da reserva do Exército, é considerado “um representante da ‘família militar’ na Câmara” carioca. Cita ainda suposta declaração, feita em junho de 1993, em que ele defende “o fechamento do Congresso e a volta da Ditadura Militar”.


Fichas na ditadura: Hebe Camargo e Pelé

A atriz e apresentadora Hebe Camargo, que morreu em 2012 aos 83 anos, foi monitorada pelos órgãos de repressão em São Paulo desde o fim da década de 1940. O primeiro registro é por ela ter assinado um manifesto contra a "cassação de mandatos" em 1947.
 

Hebe é citada ainda por organizar uma festa de aniversário do dramaturgo Oduvaldo Viana, além de ter sido citada por ter participado de atos de apoio a greve de radialistas.
 

O nome da apresentadora também aparece citada em uma reunião para fundação de uma liga, cuja denominação apontada nos arquivos do Deops era LUCI - Legionárias Unidas Conclamam Idealistas. Para a repressão, a liga tinha interesse em combater "toda iniciativa anti-patriótica" de nossas autoridades.
 

Há ainda uma anotação feita a partir do depoimento de uma testemunha que afirma que Hebe era consumidora do "pó do sonho", um dos apelidos à época para a cocaína.


O jogador do Santos e astro da seleção, Edson Arantes do Nascimento, Pelé, também aparece em ficha do Deops datada de 1973. O  prontuário de Pelé menciona que o atleta recebeu pedido de indulto de presos políticos e comprou ações de uma rádio.
 

10% do total

O presidente da Comissão da Verdade Estadual, Adriano Diogo (PT) afirma que embora  apenas 10% dos documentos do acervo de papel estejam digitalizados, há muita coisa para ver.


"O problema é que papel não fala. Tem que ter gente especializada para fazer a leitura crítica desses documentos"afirmou. Segundo o deputado, ainda não estão dispoíveis arquivos do Instituto Médico-Legal (IML) e referentes às valas clandestinas de Perus, por exemplo.


Histórico

O Deops foi criado em 1924 e funcionou até 1983. O órgão tinha como objetivo prevenir e reprimir delitos considerados de ordem política e social contra a segurança do Estado. Para isso, monitorava as atividades de pessoas e grupos considerados potencialmente perigosos à ordem vigente.
 

O Deops foi criado na década de 1920 em função de mobilizações políticas no Brasil, como greves trabalhistas, a formação do Partido Comunista do Brasil (PCB) e o movimento tenentista. O órgão, entretanto, ganhou maior visibilidade durante a ditadura militar.

Fonte: G1 

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