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Transformações

Aproximadamente 96% do território de Juazeiro do Norte é urbanizado

Em 27/01/2018 às 06:50
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Entre 1950 e 1970, a população de Juazeiro do Norte quase dobrou (Foto: Reprodução/ Diário do Nordeste)

Em 1950, esta cidade, no Cariri cearense, tinha 56.146 habitantes, mas, 20 anos depois, sua população quase dobrou, atingindo a marca 96.047. Com 96% de sua área urbanizada, a ´Terra do Padre Cícero´ tem a terceira maior densidade demográfica do Ceará, ficando atrás, apenas, de Fortaleza e Maracanaú. Com 107 anos de emancipação, o Município passou por muitas transformações em seus espaços físicos. Hoje, há uma tentativa de resgatar a memória destes locais.

O presidente da República Café Filho inaugurou a primeira usina do Complexo Hidrelétrico de Paulo Afonso, na Bahia, no dia 15 de Janeiro de 1955. Com ela, começou a fornecer energia elétrica para o Nordeste brasileiro, ajudando no crescimento, principalmente das cidades do interior. Na região do Cariri não foi diferente. No centro comercial de Juazeiro do Norte foram instaladas suas primeiras indústrias. Isso impulsionou o crescimento urbano, já acentuado com as romarias.

Mudanças

Por outro lado, a cidade passou por várias mudanças nos seus espaços físicos. Por exemplo, a rodoviária funcionava onde hoje é o Hospital Tasso Jereissati; o antigo aeroporto ficava onde é o atual prédio da Receita Federal; a primeira residência do Padre Cícero se transformou no pátio da Basílica; o primeiro cemitério agora é um conjunto de casas, ali na Rua Dr. Floro.

A Casa de Orações do Padre Cícero também não existe mais, assim como a residência da Beata Maria de Araújo, destino das primeiras romarias. No entanto, o mais simbólico é o fato de quase nenhum morador de Juazeiro do Norte conhecer o marco zero da cidade: os dois pés de juá. As árvores não existem mais, enquanto o local, descoberto em 2009, está sob uma praça.

Disputas

Para o pesquisador Renato Casimiro, as constantes mudanças no espaço físico de Juazeiro nascem da disputa entre os primeiros moradores e os romeiros. "Os filhos da terra sabiam o valor desse patrimônio. Os adventícios não tinham essa cultura. Com o tempo, os romeiros e gente de outras locais do Cariri tomaram conta da cidade, comercial e politicamente, reformando e destruindo a memória", diz.

Ele também acredita que o Município não valoriza sua rica memória. "As escolas não falam, não ensinam. Assim, a memória foi afetada e as novas gerações não sabem o que isso significou", acrescenta. Enquanto a professora e pesquisadora Ângela Lima, explica que as transformações tiram a simbologia arquitetônica, o design da época e isso faz com que as pessoas não se reconheçam. "Quando você cria novos espaços, acaba colocando, diante da sociedade, outras identidades, e levará um tempo para que ela introduza aquela simbologia no dia a dia", completa.

Resgate

Iniciada no último dia 8 de janeiro, a reforma da Praça Padre Cícero, que durará um ano, busca trazer elementos históricos do equipamento, principalmente, até meados da década de 1950. O projeto, segundo a secretária de Infraestrutura, Gizele Menezes, surgiu por meio de depoimentos, fotografias e da memória do próprio prefeito, Arnon Bezerra. Sua principal mudança será no traçado: o usuário poderá cortar a praça de uma ponta a outra.

Além disso, serão utilizados materiais da época, como ladrilhos hidráulicos, postes coloniais, bancos de granilite. A coluna da hora será restaurada e o relógio voltará a funcionar. Enquanto, nas ruas do entorno, haverá uma nova pavimentação. Perto dali, na Rua São Francisco, o terminal rodoviário dará lugar a um espaço gastronômico, com réplica dos casarões que ficavam ao redor da praça. O equipamento de embarque dos ônibus será transferido para o Centro Multiuso. E, pra finalizar, a antiga casa da família Viana se tornará uma biblioteca, com espaço de café.

A professora Ângela Lima acredita que o resgate da identidade urbana é válido, seja na sua revitalização ou na requalificação dos espaços. Mas que se deve ter cuidado porque, muitas vezes, estes projetos acabam não sendo fiéis à originalidade. "O Município deveria estar com os olhos voltados para a conservação do patrimônio histórico que a cidade já possui: casas antigas que nunca foram tombadas e transformadas. Juazeiro tem uma perda muito grande de espaço de memórias. Ela é muito negligente em relação à conservação do seu patrimônio e garantia", destaca.

Já o estudante de Arquitetura e Urbanismo André Sampaio, acredita que a reforma é benéfica e urgente, mas adverte que deve estar condizente com o desenvolvimento local. "Com a especulação imobiliária intensa e novos projetos de edificações, a arquitetura histórica aos poucos perde seu valor dentre tantos produtos de última geração e técnicas inovadoras. Apesar dessa pressão por novidade, a cultura passada é preservada como espelho de inspiração e contemplação do conhecimento dos antigos", coloca.

Outro estudante, Roberto Júnior, acadêmico de História, acredita que a reforma é benéfica, mas alerta que fazer exatamente igual é errado, porque a sociedade mudou e as demandas dela, em relação ao espaço público, também mudaram. "Mas a reforma atende aos saudosistas e às demandas", garante.

"A população tem uma visão de progresso em que tudo que é antigo oferece riscos, mas não observa que eles podem ter novos usos, atender demandas que também favoreçam um progresso sustentável. Há muitos prédios com plena condição de serem restaurados, utilizados, mas preferem, muitas vezes, demolir e construir outro mais caro, nessa ótica de atualização", conclui Roberto.

Marco Zero

Em 2009, um grupo de pesquisadores identificou o local exato dos dois juazeiros que deram nome ao Município. Ele está sob a Praça Beata Maria de Araújo, em frente à Basílica Menor de Nossa Senhora das Dores. No entanto, por lá não há nenhuma indicação de onde ficavam as árvores.

Segundo a secretária de Infraestrutura, Gizele Menezes, em 2016, a Prefeitura de Juazeiro do Norte a convidou para fazer um projeto de reforma da Praça. Nele, incluía a construção de um obelisco, marcando o ponto exato das árvores, com um desenho vazado do pé de juá e iluminação de LED. Esta iniciativa, ela pretende retomar com a atual Gestão Municipal.

"A gente pensa, mas essa ação é todo um conjunto. Quando a gente tira o terminal rodoviário para colocar naquela região, ocupa a área. As pessoas se utilizam mais. Ainda não conversei com o prefeito sobre isso. Mas, com o terminal, a população vai se apropriando. Essa simbologia é importante", garante Gizele.

Diário do Nordeste

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