Política
Entrevista
Intervenção é oportunismo para viabilizar governo fracassado, diz Dilma
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Ex-presidente também voltou a defender que PT não tem plano B à candidatura de Lula ao Planalto (Foto: Reprodução)

Em 26/02/2018 às 11:00
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A ex-presidente Dilma Rousseff voltou a falar sobre o que chama de "golpe", em entrevista divulgada nesta segunda-feira (26), pelo site Sul21. "Ele (o golpe) não foi feito simplesmente para me tirar do governo, mas para implantar no Brasil uma pauta completamente diferente daquela aprovada pela maioria da população nas eleições de 2014. O governo golpista que assume não tem legitimidade para cumprir o programa que vai cumprir, ferindo diretamente a Constituição. Um exemplo disso é a aprovação da PEC que congela os gastos por 20 anos, tirando dos cinco presidentes subsequentes aquilo que caracteriza a eleição presidencial: o poder de dispor do orçamento", afirma.

Ao analisar o cenário que surgiu após o seu impeachment, Dilma avalia que "o maior problema do golpe é que ele, politicamente, deu errado". "Ele não conseguiu criar um candidato dentro do grupo conservador básico que deu o golpe. Houve uma reação política adversa ao golpe. Eles perderam a narrativa", disse.

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Segundo a ex-presidente, um exemplo disso é que "as principais lideranças do PSDB foram praticamente destruídas em termos eleitorais". "Sobrando só o Alckmin. Mesmo o Alckmin teve um certo abalo, muito pelo fato de eles também terem apoiado o golpe. De partido da modernização conservadora, o PSDB passou a ser um partido golpista infectado pela corrupção", criticou a petista.

Na avaliação de Dilma, nas fissuras abertas pelo impeachment, surge a extrema-direita. "De tudo isso, surge o Bolsonaro. Pela primeira vez, no período pós-democratização, algo que existia na sociedade, mas não aparecia, acabou aparecendo", lembrou.

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No mesmo embalo, ela acredita que surgiram também os outsiders. "Assistimos aí também as primeiras tentativas de fazer Luciano Huck candidato com base em algo que é estarrecedor e que eu chamei de política social de auditório. Nós fazíamos política social para milhões de pessoas", completou.

Para a petista, o objetivo maior daqueles que, segundo ela, arquitetaram a sua saída do governo, é impedir a candidatura de Lula à presidência da República, já que não conseguiram enfraquecer o PT como esperavam, dada as últimas pesquisas de intenção de voto, em que o ex-presidente lidera em todos os cenários.

"Posto que não derrotaram politicamente o PT nem o presidente Lula, eles se dedicam a condená-lo e retirá-lo do processo eleitoral. A saída do Lula do processo eleitoral é algo que está na cabeça de todos eles. O cálculo político que fazem é o seguinte. Com Lula na disputa, resta uma vaga para ser disputada para ir ao segundo turno. Mas sem o Lula, sobram duas vagas", afirmou.

Ela ainda destacou que não há plano alternativa à candidatura de Lula. "Nós não aceitamos de maneira alguma nenhuma discussão sobre plano B. Uma discussão desse tipo significaria nós resolvermos para eles uma situação e um conflito que não foi criado por nós. É tudo o que eles querem. Você lembra que no meu impeachment eles queriam que eu renunciasse? Você diz para a vítima: renuncie e fica tudo bem", pontuou.

Quando questionada se será candidata a algum cargo em outubro, Dilma disse que não há nada definido. "Sempre digo que não preciso ser candidata para fazer política. Eu participei da eleição mais importante no Brasil, não que alguma não tenha importância. Cada uma tem a sua mas, inequivocamente, a eleição presidencial é a mais importante, inclusive pela quantidade de brasileiros e brasileiras que participam dela. Eu fico muito em dúvida de concorrer em outra eleição e não tenho experiência na área parlamentar. Não é minha área. E não tem sentido eu ter outro nível de atividade executiva. Tenho muita dúvida ainda e não posso dizer nada em definitivo", afirmou.

A ex-presidente também criticou a intervenção federal no Rio de Janeiro. "O mais grave no caso da intervenção no Rio é o que começou a circular nos últimos dias, como a proposta dos mandados de busca e apreensão e de captura coletivos. Só a verbalização da hipótese mostra a deterioração e o apodrecimento do ambiente político institucional do país. É óbvio que isso é ilegal e afronta a Constituição. Essa deterioração é a mais grave de todas, pois mostra um caráter autoritário presente nas ditaduras tradicionais", avaliou.

Para ela, a medida é uma tentativa adotada pelo governo de fazer o presidente Michel Temer sobreviver até a eleição de 2018. "Uma questão fundamental para a população brasileira está sendo tratada de uma forma extremamente oportunista, tentando viabilizar os últimos meses de um governo falido e fracassado".

"Quem é o inimigo? É a população brasileira que tem que ser reprimida por essa intervenção federal? Pelas declarações de integrantes do governo vê-se uma coisa surgindo claramente: o inimigo fala português, é brasileiro, negro e pobre ou mulato. Ele não é branco, não mora em Ipanema nem no Leblon. O que estamos vendo surgir no Brasil é uma ditadura feita para uma parte da sociedade. Você suspende os direitos desta parte e cria uma situação de profunda anomia no país. Qual é o passo seguinte? Qualquer enfrentamento que houver pode levar à expansão dessas áreas sem lei e sem ordem para outras áreas do território nacional. Estamos diante, portanto, de uma situação muito perigosa. O mais grave na intervenção no Rio é tratar a população brasileira como inimigo. A decorrência de ocupar território é tratar como inimigo quem vive nele", destacou.

 

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