
O dia 26 de janeiro de 2026 marcou um ponto de virada na diplomacia esportiva do
país. Em uma reunião de cúpula no Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula
da Silva, o mandatário da FIFA, Gianni Infantino, e o presidente da CBF, Samir Xaud,
formalizaram o projeto do Brasil para sediar a Copa do Mundo de Clubes da FIFA de
2029. A presença do técnico Carlo Ancelotti na mesa diretora não foi um mero detalhe
decorativo. A sua reputação serviu para dar credibilidade técnica imediata ao projeto,
ajudando a quebrar o tradicional ceticismo europeu sobre a capacidade de a
infraestrutura sul-americana atender às exigências de alto rendimento dos maiores
clubes do mundo.
Exigências operacionais e o desafio logístico
Com o novo formato de 32 equipes a cada quatro anos, estreado nos Estados Unidos
em 2025, o torneio ganhou proporções colossais. Para superar concorrentes fortes
como a Austrália ou a aliança Ibérica com o Marrocos, o Brasil precisa provar que tem
uma operação impecável. O caderno de encargos exige arenas atualizadas, equipadas
com redes 5G de alta densidade para suportar transmissões globais por streaming,
além de pelo menos 32 centros de treinamento de ponta. A estratégia aposta em um
modelo de financiamento misto público-privado. O objetivo é realizar o retrofit
tecnológico dos estádios da Copa de 2014, reduzindo as despesas de capital (CAPEX) e
repassando adaptações aos concessionários privados.
A dimensão continental do Brasil, no entanto, é um obstáculo crítico para um evento
de um mês de duração. O sistema aéreo nacional é fortemente concentrado em hubs
como São Paulo e Brasília. Viagens entre cidades-sede podem levar horas devido às
conexões. Para viabilizar a operação e aprovação da FIFA, a candidatura terá de
garantir a flexibilização de rotas e uma ampla rede de voos fretados diretos,
protegendo os elencos do desgaste físico extremo.
O impacto econômico e o business case
O argumento financeiro do governo baseia-se em atrair entre 400 mil e 600 mil
turistas, com foco massivo nos vizinhos sul-americanos. As estimativas projetam um
impacto de bilhões de dólares no PIB, impulsionando a rede hoteleira e gerando cerca
de 50 mil empregos.
Todo esse ecossistema movimenta intensamente a economia digital e atrai
patrocinadores. Durante competições dessa magnitude, o engajamento do público
com o entretenimento online atinge picos históricos. Para quem busca essa explicação,
o volume de acessos e transações financeiras em plataformas do setor ilustra bem o
peso que o consumo do futebol exerce nos serviços digitais modernos.
Governança, riscos e o calendário esportivo
Apesar do otimismo do Planalto, os riscos operacionais exigem cautela. O principal
deles é o calendário. Sediar o Mundial requer paralisar o futebol nacional por pelo
menos 45 dias, o que forçará a gestão de Samir Xaud a reorganizar drasticamente os
campeonatos estaduais e o Brasileirão. A segurança pública é outro ponto nevrálgico.
O histórico de conflitos entre torcidas organizadas exigirá investimento pesado em
inteligência e reconhecimento facial. Ademais, a entidade máxima do futebol exige
estabilidade política absoluta, sendo intolerante a qualquer nova interferência judicial
na governança da CBF.
Do legado de 2027 à decisão final
A candidatura para 2029 é desenhada como a continuação natural da Copa do Mundo
Feminina de 2027. O governo trata 2027 como um laboratório para testar operações
que serão replicadas dois anos depois.
O sucesso dependerá do alinhamento ágil do Congresso para aprovar a isenção
tributária total ("Tax Holiday") por meio da Lei Geral da Copa, da definição criteriosa
das 10 a 12 cidades-sede selecionadas, da emissão definitiva das garantias
governamentais e do cumprimento estrito do cronograma oficial da FIFA para a
escolha final do anfitrião.