Lagoa da APUC, no bairro Lagoa Seca. Em alguns trechos, a água escura indica presença de esgoto.| Foto: Guto Vital/Portal M1
Três de março de 2026. Logo nas primeiras horas do dia, Juazeiro do Norte registrou as primeiras chuvas. A água, ainda tímida no início, não demorou a ganhar força. Em poucos minutos, ruas já estavam completamente tomadas, e o que antes era asfalto virou correnteza. Bueiros não suportaram o volume e passaram a transbordar. Sacolas plásticas, galhos, restos de lixo e tudo o que estava pelo caminho desciam arrastados pela enxurrada.
No bairro São José, um carro ficou completamente submerso, deixando o motorista cercado pela água que avançava com força pela via. No Campo Alegre, um Centro de Educação Infantil teve as salas alagadas e as aulas suspensas. No bairro Jardim Gonzaga, uma criança precisou ser carregada no colo ao sair de um carro cercado pela água.
Em um outro ponto da cidade, no bairro Lagoa Seca, uma idosa ficou ilhada, com a água escura cobrindo parte do corpo, e precisou ser resgatada pelo Corpo de Bombeiros. No mesmo trecho, um homem tentou atravessar de bicicleta, mas foi arrastado pela força da correnteza.
Segundo a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), Juazeiro do Norte registrou, nesse dia, 59 milímetros de chuva — o suficiente para interromper rotinas, causar prejuízos e escancarar um problema recorrente: a drenagem insuficiente e um esgotamento sanitário que não acompanhou o ritmo de crescimento da cidade.
Quem tem medo da chuva?

Marcas no muro do Atacadão, no bairro São José, revelam a altura que a água atingiu após as chuvas. | Saulo Mota/Portal M1
Um dos bairros mais afetados por essas problemáticas é o São José, onde os alagamentos e a falta de esgotamento sanitário fazem parte da rotina dos moradores, especialmente durante o período chuvoso. Ali, a água não representa apenas transtornos momentâneos, mas prejuízos recorrentes e noites em claro. Como é o caso dos moradores da Rua Daniela Matos de Mendonça, por trás do Atacadão.
“Quando começa a chover, a gente já sabe que não vai dormir. Fica acordada, com medo”, relata a dona de casa, Francisca Gomes, que mora há mais de uma década no bairro. “A água vem com muita força, parece onda do mar. A gente teme que as comportas não resistam. Já teve caso de entortar com a pressão da água”.
Segundo ela, os prejuízos se acumulam ao longo dos anos. “A primeira vez que a nossa casa alagou foi na Semana Santa de 2013, numa sexta-feira da Paixão. A água entrou até o último vão da casa. Perdemos cama, o carro, feira, roupas, um monte de coisa. E pobre já não tem muita coisa, né?”

No bairro São José, a moradora Francisca Gomes utiliza uma comporta na entrada de casa para conter a água durante períodos de alagamento. | Foto: Saulo Mota/Portal M1
Para Francisca, o problema se agrava porque, junto com a água, vem também o lixo e outros resíduos. “Quando a água desce, vira um mar de sacolas. Também tem problema com esgoto. Tivemos que colocar válvula de contenção para evitar que a água volte pelos canos. Mesmo assim, o cheiro dentro de casa é muito forte, muito ruim.”
“A gente tenta evitar contato com a água, porque já tivemos situações em que ela voltou pelo sistema de esgoto”, relata a arquiteta Flávia Alves, também moradora do bairro. “Em uma ocasião, passamos a madrugada retirando água de dentro do banheiro. Depois tivemos que higienizar tudo com água sanitária por medo de contaminação.”
Quem também viveu a situação foi sua companheira, a tatuadora Maiana Yasmine. “Mesmo colocando canos nas entradas de esgoto para tentar equilibrar o nível da água e evitar que entrasse, ainda assim invadiu. Foi um sacrifício, ficamos sem dormir. Fiquei muito preocupada, com medo da casa encher mais e até de desabar”.
Quando a chuva cai, a cidade alaga
Além da Rua Daniela Matos de Mendonça, Juazeiro do Norte, possui outros 188 pontos de alagamentos, segundo o Plano Diretor Municipal (PDM). Quatro grandes áreas são registradas no documento sendo elas: APUC, Atacadão, Ingra Hotel e Lagoa Seca.

Mapa dos pontos de alagamentos em Juazeiro do Norte. | Fonte: Plano Municipal Diretor do Município
Para o engenheiro ambiental, Edgar Júnior, os alagamentos frequentes de alguns desses bairros estão diretamente ligados às alterações no ambiente urbano. “A Lagoa Seca, por exemplo, passou por um intenso processo de urbanização nos últimos anos. Antes, era uma área com maior presença de solo natural e vegetação, o que facilitava a infiltração da água. Hoje, é uma área altamente impermeabilizada, com predominância de asfalto e construções”, disse.
Um outro fator agravante é a deficiência na rede de drenagem da cidade. Segundo o Diretor de Infraestrutura de Juazeiro do Norte, Hermeson Vilar, o município possui aproximadamente 50 quilômetros de rede em funcionamento. “Parte dessas estruturas já apresentam insuficiência devido ao crescimento da cidade e ao aumento populacional”, afirmou.
De acordo com ele, em algumas áreas, existe apenas a drenagem superficial, feita pelas sarjetas, que conduzem a água até os pontos mais baixos. Em regiões mais centrais, há drenagem profunda, com o uso de manilhas que direcionam a água para os pontos de saída, geralmente riachos naturais do município. Contudo, bairros mais afastados, como Cidade Universitária, José Geraldo da Cruz e Planalto, ainda não possuem um sistema de drenagem adequado.

Lagoa da APUC, no bairro Lagoa Seca, completamente alagada. | Saulo Mota/Portal M1
Atualmente, os principais pontos críticos de alagamento em Juazeiro do Norte se concentram em áreas com histórico recorrente de acúmulo de águas pluviais, muitas delas cortadas por cursos naturais de drenagem.
Entre os locais mais afetados estão: o entorno da Lagoa da APUC e trechos da Avenida Padre Cícero, nas proximidades do Atacadão e do Carajás. Também figuram como áreas sensíveis a Avenida Castelo Branco, a Rua Pedro Henrique de Souza, a Rua Otílio Gomes, a Avenida Virgílio Távora e a Avenida Leão Sampaio.
Quando a chuva encontra o esgoto

Esgoto a céu aberto em rua de Juazeiro do Norte se tornou parte do cotidiano dos moradores. | Foto: Saulo Mota/Portal M1
Se por um lado a deficiência na rede de drenagem contribui para os alagamentos, por outro, um problema ainda mais complexo agrava esse cenário: as ligações irregulares de esgoto.
Segundo Hermeson, essa falta de entendimento entre drenagem urbana e esgotamento sanitário, contribui para que a água de esgoto, uma água contaminada, se misture à água da chuva, o que gera problemas como o refluxo de esgoto, enchentes em bocas de lobo e transbordamento de fossas, espalhando mau cheiro e aumentando o risco de doenças
Para o gerente executivo da Ambiental Ceará, Tadeu Bezerra, responsável pelo esgotamento sanitário da cidade, a rede coletora de esgoto existe justamente para conduzir corretamente toda a água utilizada nas residências até a estação de tratamento.
“A água que antes era limpa, após o uso, se torna esgoto e precisa ser direcionada corretamente para a rede coletora, que leva até a estação de tratamento, onde é devolvida ao meio ambiente de forma adequada”, explica.
Já a drenagem urbana tem outra função: “O sistema é voltado exclusivamente para a água da chuva. Ela cai nas ruas, segue pelas sarjetas, entra nas bocas de lobo e depois percorre galerias maiores até rios ou lagoas da região, como a bacia do Salgado. Essa água não precisa de tratamento”, esclarece.
Quando a água da chuva é lançada na rede de esgoto, provoca extravasamentos, inclusive dentro das casas, já que a rede não é dimensionada para grandes volumes pluviais. “Da mesma forma, o esgoto não deve ser despejado na drenagem, pois precisa passar por tratamento antes de voltar ao meio ambiente”, ressalta Tadeu.
Para reduzir essas ligações irregulares, órgãos municipais realizam fiscalizações, identificando e notificando os moradores para incentivar a regularização. Paralelamente, a Ambiental Ceará atua na expansão da rede de esgoto, e atualmente Juazeiro do Norte conta com mais de 26 mil ligações disponíveis.
Lixo à deriva

Ponto de descarte irregular de resíduos no bairro Timbaúbas, em Juazeiro do Norte. | Saulo Mota/Portal M1
Mas os desafios no escoamento da água não se limitam às falhas estruturais ou às ligações irregulares. Outro fator recorrente também interfere diretamente no funcionamento da drenagem urbana e do saneamento básico: o descarte inadequado de lixo, que acaba obstruindo galerias e intensificando os alagamentos.
Segundo Lânio Silva, gerente da Unidade Vale Norte de Juazeiro do Norte, empresa responsável pela limpeza pública, apesar da coleta de lixo ocorrer de forma regular no município, o descarte inadequado tem se tornado cada vez mais comum, gerando a formação de “pequenos lixões a céu aberto”.
O volume de resíduos gerados na cidade ajuda a dimensionar o tamanho desse desafio. Juazeiro do Norte produz, em média, 288 toneladas de lixo por dia. Ao longo de um mês, esse volume chega a aproximadamente 8 mil toneladas de resíduos domiciliares coletados. Mantido esse ritmo ao longo do ano, a produção ultrapassa 96 mil toneladas. Esse número não inclui o lixo gerado durante as romarias, que pode alcançar cerca de 96 toneladas por dia de festividade.
Parte desse volume, quando descartada de forma irregular, acaba se espalhando pela cidade e formando pontos críticos de acúmulo. “Existem diferentes tipos de pontos de descarte irregular: os grandes, que são terrenos baldios com grande acúmulo de lixo, e os pequenos, que surgem em esquinas, muros ou casas desocupadas”, explicou. Atualmente, os bairros com a maior incidência são Aeroporto, Frei Damião e São José.
“Um dos principais fatores que contribuem para os alagamentos é o descarte irregular de lixo. Materiais como sacolas e garrafas acabam sendo levados pela água e obstruem as redes de drenagem, impedindo o escoamento adequado”, afirma Hermeson.
Dados da Secretaria de Infraestrutura de Juazeiro do Norte apontam que, cerca de 390 metros cúbicos de entulho, lixo e sedimentos são retirados mensalmente das redes de drenagem e esgotamento da cidade. O volume é equivalente a aproximadamente 40 caminhões-caçamba totalmente carregados. Se todo o material fosse empilhado em um único local, atingiria entre 9 e 10 metros de altura, o equivalente a um prédio de três pavimentos.

Quantidade de entulho, lixo e sedimentos retirados da redes de drenagem e esgotamento. | Infográfico: Júlia Marques
Esgoto, lixo e riscos à saúde
Esse acúmulo de lixo nas ruas favorece não só os alagamentos, como a proliferação de insetos e animais peçonhentos. Durante as chuvas, as águas pluviais se misturam aos resíduos e ao esgoto das ligações irregulares, gerando um impacto direto na saúde da população.
De acordo com a médica da Atenção Primária, Dra. Isabela Macêdo, a contaminação da água expõe a população a bactérias, vírus e parasitas, além do contato com a urina de ratos. “Esse risco aumenta principalmente quando a pessoa tem algum ferimento na pele, o que facilita a transmissão de algumas doenças”, explica. Entre as doenças mais comuns nesse contexto estão a leptospirose, hepatite A e doenças diarreicas.

Resíduos descartados de forma irregular se acumulam em águas de esgoto no bairro São José. | Foto: Saulo Mota/Portal M1
Além disso, o acúmulo de água em locais com lixo descartado de forma inadequada contribui para a proliferação de mosquitos transmissores de arboviroses, como dengue, chikungunya e zika.
A coordenadora da Vigilância Epidemiológica, Karla Rafaela, reforça que durante esse período, é fundamental evitar o contato direto com áreas alagadas. Segundo ela, crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças crônicas estão entre os grupos mais suscetíveis às complicações.
“Também estão mais expostos os moradores de áreas sem saneamento básico, com esgoto a céu aberto, e aqueles que têm contato direto com essas enchentes, como trabalhadores da limpeza urbana e moradores de áreas de alagamento”, destaca.
A cidade que não parou de crescer
Juazeiro do Norte vive um ritmo acelerado de crescimento urbano, com expansão constante de bairros e aumento no número de moradias. No entanto, esse desenvolvimento não foi acompanhado, na mesma velocidade, por sistemas de drenagem e esgotamento sanitário capazes de sustentar essa nova realidade.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, na última década, o município ganhou mais de 39 mil habitantes, saltando de 266.022 em 2015 para 305.531 em 2025. Caso esse ritmo seja mantido, a cidade pode chegar a mais de 350 mil pessoas nos próximos 10 anos.

Crescimento da população de Juazeiro do Norte na última década. | Infográfico: Saulo Mota
O número de domicílios também acompanhou esse crescimento. De 69.144 moradias em 2010, Juazeiro do Norte ultrapassa hoje os 113 mil. O município ganhou 44.132 novos domicílios, um crescimento de 63,8% que redesenhou completamente a ocupação urbana. Se mantida essa tendência, até 2032, Juazeiro do Norte poderá alcançar cerca de 170.800 domicílios.

Crescimento de domicílios em Juazeiro do Norte nos últimos 12 anos. | Infográfico: Saulo Mota
É um avanço contínuo, visível na expansão dos bairros, na verticalização de algumas áreas e na ocupação de regiões que antes eram vazios urbanos – um cenário que reforça a necessidade de planejamento e investimento em infraestrutura. O cálculo é simples: mais pessoas, mais lixo sendo produzido; mais casas, mais esgoto sendo lançado.
Medidas para enfrentar os problemas

Equipes realizam a limpeza e desobstrução das redes de drenagem e esgoto em Juazeiro do Norte. | Guto Vital/Portal M1
Diante dos impactos causados pelas falhas na drenagem e no esgotamento sanitário, o município tem adotado medidas contínuas para minimizar os problemas, especialmente nos períodos de chuva.
Segundo o Diretor de Infraestrutura, Hermeson Vilar, equipes atuam diariamente na limpeza e desobstrução das redes de drenagem e esgoto, além de reparos nas estruturas existentes. De acordo com ele, “são realizadas, em média, três intervenções por dia, totalizando cerca de 60 pontos atendidos por mês, entre serviços de limpeza, manutenção e reparo”.
Além das ações emergenciais, o município também aposta em projetos estruturais para reduzir os alagamentos, um deles está em fase de elaboração do projeto executivo. “Há um projeto de drenagem para a região da Avenida Castelo Branco com a Avenida Maria Letícia Leite Pereira, incluindo a área da Lagoa da APUC. A proposta prevê a implantação de uma rede de drenagem profunda, associada a obras de pavimentação e mobilidade urbana.”
No campo do esgotamento sanitário, avanços já estão em curso. Atualmente, o município conta com mais de 140 quilômetros de rede implantada, com cobertura em torno de 50%. Contudo, alguns bairros ainda se encontram com 0% de cobertura como o casso do Tiradentes, Pedrinhas, Novo Juazeiro, Cidade Universitária, Carité, Campo Alegre e Aeroporto.

Alguns bairros ultrapassam 90% de cobertura de esgotamento sanitário, enquanto outros ainda registram 0%. | Infográfico: Júlia Marques
Segundo o gerente da Ambiental Ceará, Tadeu Ramos, a meta é ampliar significativamente esse alcance nos próximos anos. “Dentro do contrato da PPP (Parceria Público-Privada), existem metas importantes: até 2033, alcançar cerca de 90% de cobertura e, até 2040, chegar a 95%”, afirma.
Tudo se conecta no fim
Mais do que problemas isolados, o cenário exposto revela uma cadeia de fatores interligados. A falta de drenagem adequada potencializa os alagamentos, que se agravam com o descarte irregular de lixo. Esse mesmo lixo obstrui galerias, impede o escoamento da água e intensifica os pontos de inundação. Ao mesmo tempo, as ligações irregulares fazem com que o esgoto se misture às águas pluviais, ampliando os riscos à saúde.
Nesse contexto, não há solução única. Resolver apenas um desses problemas não é suficiente. A resposta passa por planejamento urbano, investimento em saneamento e drenagem, educação ambiental e participação da população.
Enquanto os problemas não são resolvidos, Juazeiro do Norte continua se desenvolvendo em ritmo acelerado. O desafio agora é transformar esse crescimento em desenvolvimento sustentável - onde água, cidade e população possam coexistir em equilíbrio.
“Esse é o meu maior sonho, e acredito que de todos os moradores daqui também”, disse Francisca.
