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Março bate recorde em 2020 de mortes por intervenção policial no Ceará
Março bate recorde em 2020 de mortes por intervenção policial
Tiroteios envolvendo policiais resultaram em dez mortes em março deste ano (Kid Júnior/Diário do Nordeste)

Mesmo com quase duas semanas de isolamento domiciliar, devido à pandemia da Covid-19, março foi o mês do primeiro trimestre deste ano de 2020 com mais mortes por intervenção policial no Ceará. De acordo com levantamento estatístico disponibilizado pela Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), dez pessoas morreram por intervenção policial nesse último mês.

Somado todo o primeiro trimestre deste ano, já são 25 mortos em ações da Polícia. Foram outras oito vítimas em janeiro e mais sete em fevereiro. Comparado aos três primeiros meses de 2019, quando 47 mortes foram registradas nesta categoria, o número é 47% menor. Com base nos dados, no ano passado, ocorreram 28 mortes por intervenção policial em janeiro; nove em fevereiro e dez em março, este último número que se repetiu em 2020.

Apesar de estarem na tabela dos Crimes Violentos Letais e Intencionais (CVLIs), a SSPDS destaca que as mortes decorrentes de intervenção policial “não são consideradas como intencionais, pois possuem excludente de ilicitude” previsto no Código Penal e que exclui a culpabilidade de condutas ilegais em determinadas circunstâncias, como legítima defesa. Os fatos resultam na instauração de inquérito policial, são apurados pela Polícia Civil do Ceará e submetidos à apreciação do Ministério Público do Ceará (MPCE).

Polícia reativa

O professor, sociólogo e membro do Laboratório de Estudos da Violência (LEV) da Universidade Federal do Ceará (UFC), Luiz Fábio Paiva, afirma que a situação de violência no Ceará é grave, e a Polícia adotou uma postura de optar por ir ao confronto. “Ela vai para a guerra. Não trabalha de maneira estratégica e nem tem suporte para resolver problemas sociais que, de certa forma, geram condições para a reprodução do crime”.

De acordo com Paiva, os números de mortes por intervenção policial mostram a permanente existência de uma política e uma Polícia reativas no Brasil. “Tem policiais na ativa em situação de confronto permanente e que vai gerando uma série de outras consequências, entre elas uma polícia brutalizada cada dia mais violenta, cada dia mais acreditando que a violência é o caminho para resolver o problema, porque ela não tem condições de resolver a situação de outro jeito”, observa o sociólogo.

Ainda na opinião do especialista, a mesma crítica é feita há anos, mas, “infelizmente, se vive um momento político no Brasil no qual o autoritarismo e a violência são valorizados e, consequentemente, as pessoas começam a incentivar ou a acreditar que esse é o caminho para resolver os problemas de Segurança Pública”.

Formação

A SSPDS destaca que a formação policial na Academia Estadual de Segurança Pública (Aesp) prevê uma condução humanizada e de intervenções técnicas, propiciando que os profissionais se preocupem com questões sociais e a resolução de conflitos.

Por nota, a Pasta acrescentou que em 2019 foram capacitados cerca de 500 policiais militares no curso “Manutenção em Policiamento Preventivo Especializado”. A Secretaria da Segurança ainda argumenta que todas as ocorrências de morte por intervenção policial são tratadas com seriedade e transparência.

Fonte: Diário do Nordeste

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