Quarentena indígena: a realidade e a filosofia dos Kariris em Poço Dantas, no Crato - Site Miséria 

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Mulher

Izabely Macêdo

Jornalista formada pela Universidade Federal do Cariri (UFCA) e Social Media do Site Miséria. Neste espaço, me disponho a falar diretamente com as mulheres.

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Izabely Macêdo

Jornalista formada pela Universidade Federal do Cariri (UFCA) e Social Media do Site Miséria. Neste espaço, me disponho a falar diretamente com as mulheres.

Quarentena indígena: a realidade e a filosofia dos Kariris em Poço Dantas, no Crato
Coronavírus, espiritualidade, autoconhecimento e o sentido de ser humano, foram reflexões que pautaram a longa conversa que tive com Vanda Cariri, na tarde de sábado (2), por telefone. Ela é indígena remanescente dos povos Kariris e compartilhou comigo reflexões que servem para pensarmos de onde viemos e para onde vamos.

No distrito de Monte Alverne, em Crato, mais precisamente no Sítio Poço Dantas, 80 famílias remanescentes da etnia indígena Kariri foram incumbidas pela ancestralidade de resistir ao apagamento das vidas que deram origem a região. Os Kariris, que só na aldeia do Crato chegou a ter 2.792 pessoas na metade do século XVIII, sofreram com a violência do império português e foram intencionalmente não registrados nos documentos oficiais da capitania do Ceará, ao ponto de estudiosos afirmarem durante séculos que esses povos não existiam mais. 

Poço Dantas é jovem no sentido da auto-afirmação. Em 2007 iniciaram o processo de resgate identitário e cultural e desde então estão mobilizados com os parentes das demais etnias do Brasil. O sítio ainda não foi regulamentado pela Funai, portanto, o acesso a políticas públicas é dificultado. Nesse momento a pandemia é mais uma grave ameaça somada às inúmeras já enfrentadas pelos indígenas em todo país. Para conhecer a realidade e a visão de mundo dos Kariris remanescentes, entrevistei Vanda Cariri.

Coronavírus, espiritualidade, autoconhecimento e o sentido de ser humano, foram reflexões que pautaram essa longa conversa que tivemos na tarde de sábado (2), por telefone. Aqui serão disponibilizados trechos desse diálogo que serve para pensarmos de onde viemos e para onde vamos. 

 

Izabelly Macêdo: Pode se apresentar.

Vanda Cariri: Eu sou Vanda Roseno Batista Cariri, não trago na minha identidade o nome ‘Cariri’ por uma questão preconceituosa. Na minha casa alguns assinam como Cariri e outros não. Sou filha de Adail Roseno Cariri e Nazaré Batista Cariri. Sou professora, doutora pela UNESP em Geografia, faço parte da comunidade indígena de Poço Dantas, que também é chamada de Umari, próximo a Monte Alverne. Tenho muito orgulho de ser indígena.

Como funciona o isolamento social em Poço Dantas?

É aquela coisa que tem na maioria das cidades brasileiras: os que acreditam e os que não acreditam. Os da terceira idade têm uma preocupação muito grande, mas como temos muitos jovens na comunidade, nem sempre atendem aos critérios estabelecidos pela OMS. E também dentro da condição da comunidade é difícil atender a esses critérios. Até uns três meses atrás, a comunidade não tinha água, foi uma conquista de quase 10 anos de luta. Não tem saneamento básico. São situações que nos deixam vulneráveis. 

Houve o fechamento do sítio?

Não. Já tem caso confirmado vizinho à comunidade. O controle é muito complicado. A polícia já foi lá e fechou bar. A gente sabe que não só no Monte Alverne, mas que a questão do coronavírus é uma ameaça muito grande aos povos indígenas. A gente sabe que quem está dentro da sociedade e já adquiriu esses costumes e crenças também já criou resistência. Mas nossos parentes que vivem isolados, se não houver um cuidado especial, se as políticas não se voltarem para esses povos, o Covid é uma ameaça. 

Qual o risco de chegar o Covid em Poço Dantas?

São muitos. Já temos numa comunidade próxima. A possibilidade de um jovem  que vive em contato com outras comunidades levar para a nossa é muito grande. E nós temos aquela cultura de se você chegar na minha casa e eu disser “não entre” é muito difícil. É um sentimento muito forte dentro de nós. Então dizer “não” a alguém que chega e possa criar uma situação de transmissão desse vírus é muito complicado. 

Quando o vírus chegou ao Cariri, quais foram as primeiras preocupações da comunidade?

Logo quando eu fiquei sabendo, a nível nacional, nós começamos a conversar. Desde esse dia que não vou na comunidade porque como sou educadora tive contato com os alunos até o Governador do Estado dizer que não éramos para irmos mais. Todos foram informados, toda semana estou em conversa com eles. Mas existe um costume tão grande de estarem juntos, que dificulta. 

E hoje, já no decorrer da quarentena, as preocupações permanecem ou mudaram?

Mantém-se. Quem vem receber o dinheiro da minha tia é a menina mais nova. Claro, ainda existe o risco. Mas há o cuidado porque todo mundo fica preocupado com os mais velhos. 

A saúde indígena é uma preocupação do poder público municipal?

Se a gente for olhar para o nosso país que a Saúde Pública não atende a população, imagine a saúde indígena. Muitos nem sequer reconhece a gente como indígena, ainda há muita piada na sociedade. O poder público ainda não se apropriou da importância desse povo para a própria história do município. No entanto, a luta da comunidade fez com que o poder municipal levasse água recentemente. Isso já demonstrou um reconhecimento do poder público. Outra coisa: a nível estadual estamos pleiteando com a Secretaria de Educação a vinda de uma escola indígena para a comunidade.

Qual o impacto desse confinamento na rentabilidade da comunidade?

Como vivem muito da agricultura, eles diminuíram a ida ao trabalho. Eles vivem do que vender, do que tiram da agricultura, vão para a feira e na feira negociam os animais que criam. E agora não podem fazer nada disso. A renda deles desapareceram. Como eles vão vender se não existe comércio aberto? A condição financeira fica bastante difícil. A não ser os aposentados. Mas os pais de família que vivem de vender o seu legumezinho para sustentar a família, fica difícil.

Foram contemplados pelo Auxílio Emergencial?

A grande maioria sim.

Você atribui ao o que uma doença tão devastadora quanto essa?

O coronavírus é um vírus que vem mostrar para a humanidade um processo reflexão interior, uma busca pelo eu e descobrir enquanto ser humano qual nosso papel na Terra. Pra quê nós viemos? É uma forma de refletir sobre a solidariedade e acima de tudo sobre a espiritualidade. Uma forma de nos tornarmos mais humanos. Dos poderes constituídos entenderem que por mais que tenhamos as maiores tecnologias e todo conhecimento científico, nenhum de nós temos grandeza sobre os demais povos. O covid nos fez entender o que o sistema capitalista nos levou a uma situação que precisamos reformular a forma de viver, as relações sociais, econômicas e de nos educar. É uma reinvenção do ser. A humanidade foi antes do covid e depois do covid. 

O que as crenças Kariris falam sobre o adoecer?

A principal causa para o  corpo adoecer é a mente. É como nos sentimos. Por exemplo: a ansiedade, o medo dessa doença, nos leva a ficar mais vulneráveis. A questão espiritual também. Uma das coisas que mexe com a gente nesse momento é se desprender das coisas. Para a nossa comunidade já não há problema em se desprender, porque não somos apegados a nada. Hoje entendo por que meu pai era tão desapegado às coisas. Para ele era tanto faz como tanto fez. O adoecer do corpo está muito condicionado a nossa forma de vida. Eu que estou nessa loucura da cidade, estou mais predisposta a adoecer do que minha tia que está lá no sítio. Espiritualmente ela está melhor. São três elementos: o espiritual, o mental e a alimentação. Durante muito tempo nós plantamos o que comíamos. A qualidade do alimento é um dos fatores determinantes para nossa questão imunológica. 

A pandemia tem me feito refletir sobre as desigualdades, a política, a liberdade, comunidade, espiritualidade… 

Principalmente espiritualidade. A gente tem perdido muito essa essência da espiritualidade. Perdemos nossa essência, dos nossos ancestrais, das nossas raízes. É uma dor que existe entre a gente. A gente se catequizou e usa todas essas religiões que não são nossas, mas dentro da gente existem cicatrizes. Essa questão do resgate, da espiritualidade não é só nossa, é da humanidade toda. 

Um país que respeite e acolha todas as formas de vida é possível?

Acredito que sim. Desde que a gente entenda o que é realmente a essência da vida. O que é viver bem pra gente enquanto ser humano? A primeira coisa é perceber o valor que cada um de nós temos. Eu não posso valorizar uma formiga sem que eu consiga entender o meu valor. Sem que eu entenda que eu sou uma parte do todo e não superior aos demais; que eu faço parte do todo, de uma cadeia que interage pra que viva bem. 

O que nos falta enquanto humanidade?

Principalmente o autoconhecimento. A essência da espiritualidade, saber realmente a nossa essência. Compreender que todos somos integrados e dependemos um dos outros.

Recentemente um influenciador digital da região divulgou um vídeo carregado de estereótipos sobre os indígenas. 

Eu sofri muito com isso.

E foi muito repercutido nas redes sociais. 

A Associação Indígena junto com o GRUNEC  fez um requerimento pedindo que ele se retratasse. 

O caririense está em que nível de mobilização e compreensão sobre as pautas dos povos originários?

Você sabe que dentro da história nós fomos tratados com muito preconceito. Como gente que não presta, vagabundos, preguiçosos. As marcas que a gente traz da história é muito difícil. Muita gente ainda diz piada e não acredita. Mas a gente tem conseguido fazer um trabalho de reconhecimento, mas a grande maioria ainda é difícil. 

Quem são as pessoas que estão juntas na luta com vocês?

Muitas instituições têm feito um papel interessante e têm reconhecido. Escolas, ONGs, Universidades, o GRUNEC, o Sesc.

O que a história do sistemático apagamento dos Kariris na nossa região pode nos dizer sobre nossa noção de povo caririense?

A grande parte da nossa sociedade atual não tem noção das nossas raízes nem da importância dos valores das nossa raízes para a humanidade. Porque se a gente partir daquele ponto que estávamos conversando, que temos que nos reinventar, valorizar o espiritual, os nossos costumes e valores, nós vamos viver na forma de vida da nossa ancestralidade e aí os nossos valores hoje para a humanidade são essenciais para reestruturar a nossa forma de viver no mundo. 

Qual sua visão sobre as políticas do atual governo para os indígenas no país?

De forma muito simplória: o atual governo não tem nenhuma preocupação com a questão indígena. Ele nega toda nossa existência e é um novo massacre que estamos vivendo. Hoje nós voltamos a ter negados nossos direitos, conquistas e lutas. Eu fiquei muito desestimulada quando ele entrou para dar continuidade ao nosso processo de reconhecimento. 

O Abril Vermelho* foi diferente esse ano. 

Ele levou essa possibilidade da gente dialogar. Houve uma repercussão muito grande com as atividades online. Conseguimos visibilidade, dialogar, mostrar a existência, integrar forças para lutar em relação às políticas públicas, mostramos nossa cara. Conseguimos expor a questão dos nossos parentes no Amazonas com os grileiros…   

*Em abril, os movimentos sociais realizam o Abril Vermelho, um marco na luta por justiça social às vidas indígenas perdidas no país.

13 anos de mobilização para resgatar a identidade Kariri em Poço Dantas. Quais as principais conquistas da comunidade?

A primeira que considero de grande relevância é o nosso autorreconhecimento, intensificação e valorização dos valores culturais, a água para sobrevivência, a autoestima da comunidade, o orgulho de ser indígena, a conquista de dialogar com outras etnias, as parcerias com instituições, a criação da Associação Indígena, levantar a palhoça na comunidade, realização de pesquisas científicas.

“Por nós, pela ancestralidade e pelas futuras gerações.”. O que essa frase significa pra você?

O respeito aos valores e a cultura indígena e o reconhecimento de que nós indígenas não existíamos, nós resistimos e existimos.

 

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