Tubulação de água tratada passa sobre canal tomado por esgoto no entorno do Parque das Timbaúbas, em Juazeiro do Norte | Foto: Rogério Brito/ M1
Na Avenida Antônio Pereira da Silva, ao lado do Parque Ecológico das Timbaúbas, em Juazeiro do Norte, uma Estação Elevatória de Água Tratada (EEAT) bombeia a água extraída de um poço tubular ainda ativo no local. Ele fica a cerca de 300 metros da lagoa do Riacho dos Macacos, que há anos recebe esgoto e sofre com altos níveis de poluição. A tubulação que leva água tratada para as residências passa por cima de um canal que deveria drenar águas pluviais, mas acabou se transformando em um “rio de esgoto”.
Diferente da maioria das cidades brasileiras, que captam água de rios ou açudes, Juazeiro depende exclusivamente de fontes subterrâneas para abastecer seus quase 300 mil habitantes. Toda a água que chega às torneiras do município é retirada de 74 poços profundos, espalhados por 21 bairros. Embora essa condição seja considerada por muitos um privilégio hídrico, especialistas alertam que a baixa cobertura de saneamento ameaça a qualidade dessas águas e coloca em risco o abastecimento da cidade.
Mensalmente, a Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) retira das fontes subterrâneas 2 milhões de m³ de água, volume que permitiria encher mais de 26 piscinas olímpicas a cada dia. Por outro lado, quase metade disso vira esgoto despejado sem o devido tratamento, ameaçando o lençol freático. Conforme dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (Sinisa), o município gera cerca de 961,98 mil m³ de efluentes por mês, o que corresponde a 13 piscinas olímpicas diariamente.
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Para o especialista em gestão ambiental Eraldo Oliveira, ex-superintendente da Autarquia Municipal de Meio Ambiente de Juazeiro do Norte (Amaju), a contaminação das águas subterrâneas já é uma realidade em alguns pontos do município e está diretamente relacionada à falta de saneamento básico. Segundo ele, a carga de poluentes presente em riachos, rios urbanos e até na própria estrutura de drenagem da cidade tem transformado esses cursos d’água em verdadeiros canais de esgoto.
“Muitos poços da Cagece já foram fechados. Existem contaminações, inclusive, por mercúrio, por coliformes fecais e outros tipos como bário e elementos químicos que já foram constatados em função da falta de saneamento. E isso traz, de fato, repercussão não somente nos nossos aquíferos mas principalmente no sistema de saúde porque as doenças de veiculação hídrica elas tendem a cada vez mais aumentar”, alerta.

Infográfico: Júlia Marques/ Colaboração para o M1
Um artigo publicado em 2024 por pesquisadores da Faculdade de Tecnologia do Cariri (Fatec) também apontou que as águas subterrâneas de Juazeiro do Norte têm alto risco de contaminação microbiológica. O alerta também está ligado ao lançamento de efluentes que infiltram no solo e atingem o aquífero que abastece os poços da cidade, fato comprovado por estudos e análises recentes. Em 2025, foram identificados coliformes totais e a bactéria Escherichia coli em amostras da rede de distribuição em diversos meses. Os dados constam no relatório anual de informação ao consumidor divulgado pela Cagece.
Ao longo do ano passado, foram registradas 76 amostras fora do padrão para coliformes totais e oito para Escherichia coli. A Escherichia coli é um indicador mais específico de contaminação e, segundo o Ministério da Saúde, deve estar ausente em todas as amostras. Conforme nota técnica da pasta, essa bactéria pode causar vômitos, febre e diarreia severa. Crianças, idosos e gestantes fazem parte do grupo de risco e podem até mesmo perder a vida em casos mais graves.
“Com a deficiência das redes coletoras, grande parte do esgoto doméstico e industrial acaba sendo lançado diretamente nos cursos fluviais, sem qualquer tratamento, comprometendo a disponibilidade de água potável nos mananciais. […] Essas condições podem propiciar sérios riscos à saúde da população”, reforça o estudo publicado pelos pesquisadores David Gonzaga Lemos, Anielle dos Santos Brito, Samila Barbosa Lisboa e Rildson Melo Fontenele.

Cano despeja efluentes em rua do bairro Triângulo, em Juazeiro do Norte | Foto: Nathalie Fernandes/ M1
Empresas e esgoto doméstico já impactam o fechamento de poços
Conforme o novo Plano Diretor Municipal (PDM), Juazeiro do Norte tem 51 empreendimentos que lançam esgoto diretamente no solo, sendo 25 classificados como de alto potencial poluidor e 26 de médio potencial. O mapa disponível no documento aponta diversas empresas localizadas muito próximas de poços da Cagece e a cursos d’água. Somente no entorno do Parque das Timbaúbas, são pelo menos nove.
“A água que você encontra lá são águas servidas, águas da indústria, de empresas, muitas vezes águas da grande maioria dos bairros, transformando esses riachos em repositórios de índices de contaminação. Como a água é infiltrada, traz o problema de contaminação dos nossos poços. Como eu disse, muitos dos nossos poços já foram fechados. Muitos deles já estão poluídos”, complementou Eraldo Oliveira.
Esse cenário, somado ao esgoto gerado por residências, ajuda a explicar os impactos já sentidos no abastecimento da cidade. Recentemente, seis poços foram desativados devido ao padrão de qualidade da água bruta ter atingido um ponto crítico. A informação foi confirmada por Jocélio Veras, coordenador da Cagece no município. Segundo ele, os fechamentos se dão por conta da exigência de maior investimento financeiro para recuperá-los. Nesses casos, a decisão é buscar novos mananciais.
“Esses poços estão localizados todos dentro da nossa área urbana, um ficando à margem da Avenida José Bezerra, tem dois à margem da Avenida Antônio Pereira da Silva, um na Avenida Madre Nely Sobreira, um na Avenida Aílton Gomes, o outro fica na avenida da entrada do Parque Ecológico, que é dentro da própria unidade do parque. Tem um poço lá também que foi desativado”, listou.

Infográfico: Júlia Marques/ Colaboração para o M1
Segundo Veras, o único poço tubular que restou dentro do Parque das Timbaúbas segue dentro dos padrões de potabilidade, apesar da proximidade de poluentes. “Não há nenhum comprometimento ainda, realmente está sendo feito todas as análises, constantemente. Ele fica antes daquela lagoa que tem dentro do próprio parque. É com a distância que garante hoje ainda a tranquilidade em relação a essa água bruta dele”, diz o coordenador.
Para substituir os poços desativados e não comprometer o abastecimento, a Cagece informou que 14 novos poços foram perfurados e serão ativados ainda neste ano. Dessa forma, o município passará a ter 88 poços em operação. “Sempre que identificado através das análises que um dos poços vai trazer algum tipo de dificuldade maior para o seu tratamento, são definidas novas áreas e perfurados novos poços para poder substituir essa captação”, acrescenta.
Os demais poços tubulares ativos estão localizados nos bairros José Geraldo da Cruz, Limoeiro, Lagoa Seca, Frei Damião, Romeirão, Aeroporto, São José, Campo Alegre, Jardim Gonzaga, Três Marias, Cidade Universitária, Oásis, Betolândia, Santo Antônio, Triângulo, Monsenhor Murilo, Sombra do Juá, São Sebastião, Carité, Novo Juazeiro e Sítio Gavião. Jocélio explicou que todos os poços passam por monitoramento constante para identificar qualquer alteração na qualidade da água.
“Para garantir a qualidade do nosso produto, nós temos análises realizadas constantemente através do nosso laboratório regional. Elas são feitas nos parâmetros físico-químicos e bacteriológicos na saída do tratamento, de forma semanal, e na rede de distribuição, de forma diária. Isso, logicamente, atendendo a um plano de amostragem já definido pelo Ministério da Saúde”, assegura Jocélio.

Poço tubular no Parque das Timbaúbas foi desativado após alterações na qualidade da água | Foto: Rogério Brito/ M1
Risco de colapso no abastecimento
Além dos impactos já observados na qualidade da água, especialistas alertam que a contaminação do aquífero pode comprometer o próprio futuro do abastecimento em Juazeiro do Norte. Ainda de acordo com Eraldo Oliveira, o sistema subterrâneo que abastece a cidade já apresenta sinais de pressão tanto pela exploração contínua quanto pela presença de poluentes infiltrados no solo.
“Nós hoje estamos tomando paleoáguas. O que são paleoáguas? São águas antigas, águas de alguns anos, centenas de anos atrás. Significando dizer que a água nova não está conseguindo repor aquilo que é tirado do aquífero. E, além do mais, essa carga de poluentes trazendo problemas para o nosso futuro abastecimento”, explicou.
Diante desse cenário, Eraldo avalia que, caso não haja uma política mais rigorosa de gestão dos recursos hídricos e de controle sobre o lançamento de efluentes no solo, o município terá que buscar novas fontes de abastecimento no futuro. Entre as possibilidades, ele cita a utilização de açudes como o Manoel Balbino, em Juazeiro do Norte, e o Thomás Osterne, no Crato, e até mesmo a integração com a transposição do Rio São Francisco.
“Se a gente não tomar uma medida drástica, uma política de gestão de recursos hídricos, nós temos a possibilidade de mais tarde estar tomando água dos dois reservatórios que eu falei, mas também da interligação de bacias do São Francisco, através do Cinturão das Águas, ou seja, a água vindo do São Francisco e já passando aqui, futuramente para abastecimento”, afirmou.
“Uma futura transposição do Rio Cariús também seria importante exatamente para evitar o desabastecimento da cidade, não em função da ausência de água do solo, mas principalmente em função de possível poluição do nosso aquífero. E quando um aquífero é poluído, ele é muito caro e às vezes até inviável de despoluir”, completou.

Especialista aponta o Cinturão das Águas como possível solução futura para abastecimento em Juazeiro do Norte | Foto: Guto Vital/ M1
Ligação à rede de esgoto pode frear contaminação
Tanto a Cagece quanto a Ambiental Ceará, além dos pesquisadores da Fatec e do ex-superintendente da Amaju, são unânimes em apontar que a ampliação da cobertura da rede de esgotamento sanitário, seguida da efetiva ligação de empresas e residências ao sistema, é a principal medida para reduzir os riscos de contaminação do lençol freático e preservar as águas subterrâneas do município.
Segundo a Ambiental Ceará, Juazeiro do Norte já atingiu quase 50% de cobertura de rede coletora. Esse percentual foi alcançado no final de 2025, por meio do agrupamento das redes preexistentes e da construção de 140 km de novas redes, especialmente nos bairros Frei Damião, São José, Triângulo, Antônio Vieira, Santo Antônio e Três Marias. Contudo, mais de 20 mil endereços já poderiam estar conectados ao sistema de esgotamento sanitário, mas ainda não realizaram a ligação.
É o caso de Paulo Vítor, morador da Rua Rafael Malzoni, no bairro Triângulo. A residência dele já está preparada para a ligação à rede coletora, mas o procedimento ainda não foi realizado. “Pretendo fazer. Disseram que tem que fazer a instalação, né? De dentro de casa pra essa parte aqui instalada na calçada. Já passaram aqui, deixaram os papéis. Essa situação aqui [apontando para uma vala de esgoto] tem muita coisa do uso diário, de pia, lavação de roupa”, disse o morador, que está desempregado.
Na mesma rua fica a lanchonete do microempreendedor Marcelo Costa. Ao contrário do vizinho, ele já realizou a ligação do esgoto gerado pelo seu negócio ao novo sistema de coleta. Contudo, o esgoto continua passando em frente ao estabelecimento, o que acaba afastando clientes. Ele avalia que, enquanto apenas alguns fizerem a ligação à rede e outros não, o problema vai continuar.
“O que levou mais é para ter mais higiene aí na frente, né? Foi o que me levou [a fazer a ligação]. Mas ninguém faz isso, não adianta um fazer e o resto não fazer. Isso aí eu vou pagar e quem não fez vai estar do mesmo jeito. Na frente do comércio, isso aí. Isso já tem mais de 20 anos aqui”, lamentou.

Marcelo já ligou sua lanchonete à rede coletora, mas ainda convive com esgoto em frente ao comércio no bairro Triângulo | Foto: Nathalie Fernandes/ M1
Desafio agora é convencer moradores
De acordo com dados do Trata Brasil, em 2026, Juazeiro do Norte ocupa o 81° lugar no ranking do saneamento, um salto de 4 posições em relação a 2025. Contudo, na tabela registrada, o município ainda apresenta a pior colocação entre as cidades do Ceará em saneamento básico.
Para ampliar o número de ligações à rede de esgotamento, a Ambiental Ceará afirmou que tem realizado ações de educação socioambiental nos bairros já contemplados. Uma das estratégias é o contato direto com moradores, por meio de visitas domiciliares para apresentar informações sobre os serviços prestados e esclarecer dúvidas. No total, a concessionária já realizou mais de 13 mil visitas domiciliares desde o início da operação na cidade.
“É uma decisão individual que causa um benefício coletivo. Se numa rua que tem dez residências e todas têm a disponibilidade da rede, mas uma pessoa que mora mais acima não se interliga e continua lançando o esgoto na sarjeta, o que vai acontecer? Mesmo que as outras estejam interligadas, ainda fica a sensação de que a rede coletora não resolveu o problema, porque o esgoto continua passando na frente das casas e mantendo uma situação insalubre”, explica Tadeu Bezerra, gerente executivo da Ambiental Ceará.

No bairro Triângulo, esgoto doméstico é lançado na via pública, apesar da presença de rede coletora instalada na rua | Foto: Nathalie Fernandes/ M1
Além das visitas domiciliares, a empresa destacou ainda que promove o programa Afluentes, que reúne lideranças comunitárias para apresentar o funcionamento da concessionária e discutir a importância do saneamento no bairro. Durante os encontros, os participantes conhecem as atividades realizadas pela empresa e o impacto do serviço no cotidiano da população.
Outro projeto é o Saúde Nota 10, desenvolvido em escolas. A iniciativa leva atividades de educação ambiental para estudantes. Segundo Tadeu, as abordagens são adaptadas de acordo com a faixa etária. “Os pequenininhos recebem uma abordagem mais lúdica, os maiores uma explicação mais técnica e, com os jovens, a conversa também envolve aspectos econômicos e sociais”, informou.
A Ambiental também mantém o projeto Pioneiros, voltado para estudantes do ensino médio. No programa, os jovens participam de uma imersão na concessionária para conhecer o funcionamento dos setores e entender o que é o saneamento básico e o esgotamento sanitário. Após a experiência, cada participante escolhe um tutor na área de interesse e desenvolve uma proposta que possa ser aplicada na escola ou na comunidade.
Outra ação é a premiação de jornalismo ambiental, que reúne estudantes e profissionais da comunicação para discutir o tema do esgotamento sanitário. De acordo com o gerente, o objetivo é ampliar o entendimento sobre o assunto. “É importante que os formadores de opinião compreendam o que é o esgotamento sanitário e para que ele serve, porque também são porta-vozes da população no dia a dia”, concluiu.
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