No Ceará, as categorias mais afetadas foram técnicos ou auxiliares de enfermagem (4.522), enfermeiros (2.246), agentes comunitários (1.571) e médicos (1.463) (Thaires Magalhães/SVM)
A Universidade Federal do Ceará (UFC) inicia nesta semana a etapa cearense da pesquisa nacional denominada “Avaliação de Riscos de Profissionais de Saúde Que Cuidam de Pessoas com Covid-19”. O estudo vem sendo idealizado desde abril, e é desenvolvido junto ao Instituto Evandro Chagas (Pará), Instituto Aggeu Magalhães – FIOCRUZ (Pernambuco), Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e pelo Hospital Moinhos de Ventos (Rio Grande do Sul).
O objetivo é identificar e dimensionar os impactos da pandemia do novo coronavírus entre o grupo dos profissionais da linha de frente no combate à pandemia. A coordenadora-geral da pesquisa e professora da da Faculdade de Medicina da UFC, Lígia Kerr, destaca que o diferencial desse trabalho é medir também impactos da saúde mental.
“A pesquisa foi aprovada em maio e então começamos a trabalhar no sistema de apuração, considerando que essa população foi extremamente afetada. Essa pesquisa vai fazer algo muito importante, a avaliação do impacto mental. Porque se você olhar, grande parte dos profissionais tiveram problemas emocionais por cenário de guerra que é descrito, que ocorreu durante o pico da doença”, aponta Lígia Kerr.
Antes do início da etapa no Ceará, Recife foi o pioneiro no estudo e os pesquisadores conseguiram identificar uma taxa de positividade de infecção pelo vírus Sars-Cov-2 de 36% entre esses profissionais. A coordenadora da pesquisa aponta que a taxa é considerada muito alta. “É um índice extremamente elevado, pouco lugares no mundo tem uma taxa tão elevado de infecção entre os profissionais da saúde. [E] Poucas categorias estão em uma situação com essa”, avalia a professora.
De acordo com a plataforma digital IntegraSUS, gerida pela Secretaria de Saúde do Ceará (Sesa), atualmente o Estado acumula 17.314 diagnósticos positivos de covid-19 entre profissionais de saúde, dos 64.954 casos notificados, segundo a atualização das 11h26 desta terça-feira (10). Apesar de a pesquisa estar no inicio, dados disponíveis na plataforma do governo estadual já dão alguma dimensão do que a pesquisadora encontrará pela frente.
“Esses números demonstram quase 27% dos casos notificados sendo confirmados, é muita coisa. Isso equivale a áreas de Fortaleza com IDH (Índice de Desenvolvimento Humano)baixíssimo. E eu estou fazendo essa comparação porque nessas áreas foi mais difícil de controlar os impactos do vírus, porque tem um percentual maior de informais e tem que trabalhar, porque vivem em casas menores, menos ventiladas e com mais pessoas”, exemplifica. “Isso significa, que nossos profissionais estiveram em situações muito complexas”, completa.
Pesquisa
Na etapa cearense da pesquisa serão contatadas três categorias de profissionais de saúde: técnicos de enfermagem, enfermeiros e médicos. As três categorias estão entre os mais infectados pelo vírus no Estado. Durante os próximos seis meses, será identificado nesses a prevalência da doença pandêmica, estimar a taxas de absenteísmo, como se deu o uso dos Equipamentos de Segurança Individual (EPIs) e investigar questões relacionadas à saúde mental e emocional desses profissionais.
A pesquisa usa a metodologia chamada de Respond Driven Sampling (RDS), na qual os primeiros profissionais escolhidos pelos pesquisadores, os chamados “sementes”, irão convidar até cinco outros para participarem. Desta forma, não ocorre o contato direto entre pesquisador e participante. A primeira parte consiste de uma etapa qualitativa com entrevistas de profundidade com 50 profissionais-chaves. A segunda fase é quantitativa e tem como meta mapear a situação de 350 entrevistado de cada profissão pesquisada.
“Passaremos o link da pesquisa para esses profissionais sementes e quando eles terminarem de responder, vão receber um outro link que irão passar para cinco colegas da mesma profissão. Desta forma, quem for terminando vai passando para mais cinco, igual o R da Covid, e assim vai andando em projeção geométrica. Quando chegarmos em 350 profissionais de cada categoria, aí paramos”, explica a coordenadora da pesquisa.
Esses profissionais serão acompanhados durante os seis meses seguintes, preenchendo novos formulários com dois, quatro e seis meses. Para a professora da Faculdade de Medicina da UFC esse acompanhamento é essencial. “Vamos acompanhar, porque vivemos momentos diferentes da pandemia, iremos abordar o que aconteceu com eles no primeiro período [da pandemia], o que está acontecendo com ele naquele momento, se mudou a percepção de como agir, se relaxou na forma de proteção física e o estado emocional”, conclui.
Fonte: Diário do Nordeste
