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Saída de Faustão da Globo traz debate sobre o futuro dos programas de auditório
Saída de Faustão da Globo traz debate sobre o futuro dos programas de auditório
Fausto Silva comanda o 'Domingão do Faustão' desde 1989 e é líder de audiência (Selmy Yassuda/Globo)

Os versos de “Um Novo Tempo”, canção de Marcos Valle, Paulo Sérgio Valle e Nelson Motta, que ficou famosa nas propagandas de fim de ano da Globo, nunca fizeram tanto sentido como agora. Nos bastidores da emissora da família Marinho, “o futuro já começou”, literalmente, em um processo de reformulação que ganhou destaque na última semana. Fausto Silva, que está na Globo há mais de 30 anos, anunciou que deixará a empresa em dezembro de 2021, após o encerramento de seu contrato, e partirá para novos desafios. O assunto fez nascer o debate sobre o futuro dos programas de auditório e de como será a programação de fim de semana da emissora.

A notícia da saída de Fausto e, consequentemente, do fim do “Domingão do Faustão” pegou muita gente de surpresa. Afinal, o apresentador, apontado como o dono do maior salário da TV brasileira – estima-se que ele receba R$ 5 milhões por mês –, continua a ser líder de audiência nas tardes de domingo, além de ser visto como bom vendedor, ajudando a Globo a lucrar com merchandising. Mas o que, então, justificaria o fim dessa parceria?

“A decisão de sair foi naturalmente do Fausto”, contou Flávio Ricco, colunista do portal R7 e do jornal Super Notícia – o jornalista foi o primeiro a divulgar que o apresentador não renovaria o vínculo com a emissora. “Não tenho detalhes da negociação, mas sei que a Globo pretende fazer algumas mudanças na programação dela, e isso poderia interferir no horário do Fausto. Ele não aceitou e resolveu sair”, explicou o crítico de TV, destacando que a questão financeira não teria interferido nessa decisão. “A questão é que não houve um acordo sobre o trabalho que ele faria a partir de 2022. Foi proposta a ideia de um programa nas noites de quinta-feira, e ele também achou que não deveria aceitar”, pontuou Ricco. De fato, a Globo confirmou, em nota, que partiu de Fausto a decisão de “encerrar sua jornada à frente de programas semanais”, porém não deu detalhes do caso.

O jornalista acredita que não era desejo da emissora carioca perder Fausto Silva pelo que ele representa para a televisão brasileira. “É preciso diferenciar o seguinte: tem muito apresentador de televisão, mas animador de TV – aquele que você põe no palco, e ele faz o programa – são poucos. O Fausto Silva é um deles”, analisou o colunista, citando o fato de que hoje muitos programas de auditório são baseados em formatos e quadros cujos direitos foram adquiridos para exibição no Brasil. “Embora o ‘Domingão’ também tenha quadros e formatos importados (como o ‘Dança dos Famosos’), a figura mais forte do programa é o Fausto, é ele quem chama a audiência”, destacou Ricco.

‘Quem sabe faz ao vivo’

Crítica de TV e colunista do jornal “O Globo”, a jornalista Patrícia Kogut afirma que Fausto Silva é, sem dúvida, uma pessoa importante na televisão brasileira e “tem um lugar de destaque entre os que fizeram e fazem TV”. “Quando Fausto fala que ‘quem sabe faz ao vivo’, ele é essa pessoa. Ele é um cara que faz, sabe manter acesa uma plateia durante horas, e esta é uma tarefa muito difícil”, assegurou Patrícia, que também é autora do livro “101 Atrações de TV que Sintonizaram o Brasil”.

Para ela, o apresentador, que estreou na Globo em 1989 com o “Domingão do Faustão”, fez um programa muito bem-sucedido. “Quem disser que isso não é verdade vai estar mentindo, porque tem uma história importante, marcou a televisão”, disse a jornalista, destacando os 32 anos em que a atração está no ar.

“Eu me lembro do programa do Fausto na TV Bandeirantes, o ‘Perdidos na Noite’. Foi algo pioneiro, uma coisa escrachada, divertida… Foi ali que ele começou a fazer sucesso na TV”, recordou a crítica de TV. Ela frisou que, mesmo após trocar a Band pela Globo, Fausto Silva fez questão de preservar sua marca pessoal, como a verborragia, característica que rende, ainda hoje, muitas críticas ao apresentador.

‘A hora é agora’

Fausto Silva se tornou uma figura emblemática e reina nas tardes da televisão brasileira há 32 anos. Sua saída da Globo encerra uma era que marcou gerações e acende a discussão sobre o futuro dos programas de auditório. “Vai acabar o programa de auditório? Sinceramente, é um chute no escuro, porque ninguém sabe. Os programas de auditório estão aí, o público gosta; eles ainda dão audiência bem interessante”, observou Flávio Ricco, crítico de TV e colunista do Super Notícia.

Patrícia Kogut salienta que esse formato existe “desde os primórdios da televisão brasileira” e faz muito sucesso. Porém, ela ressalta que é preciso rever algumas atrações desses programas, que, segundo ela, envelheceram mal. “As bailarinas dançando seminuas (no ‘Domingão do Faustão’), no mundo de hoje, eu acho que não cabe mais, tem que ser repensada. É machista”, exemplificou ela, ressaltando a necessidade de os programas de auditório se reinventarem.

“Só que eu acho que essa tarefa vai ficar de herança pra quem entrar no lugar do Fausto. Não sei se a Globo vai seguir nessa fórmula, se vai ter um sucessor dele lá nesse formato de programa de domingo ou se vão partir para um outro tipo de programa ali. Isso eu não sei dizer, eu gostaria de saber, estou tentando saber (risos)”, analisou a jornalista.

E como diz um dos bordões de Fausto Silva, “a hora é agora” de pensar nas possibilidades para os domingos da Globo. Em nota, a emissora anunciou que “vai reunir a sua comunidade criativa para definir qual dos projetos em discussão para o domingo é o mais adequado aos desafios de 2022 e a seu compromisso permanente com a inovação”.

O também crítico de TV Maurício Stycer escreveu, em sua coluna no portal Uol, que este é um momento em que a emissora “tem a chance de quebrar alguns paradigmas e tentar algumas inovações”. Segundo ele, seria um equívoco procurar um apresentador com um estilo parecido com o de Fausto Silva. “Não é necessário ter um mesmo apresentador no comando de uma atração um ano inteiro. É possível buscar diferentes atrações em formato de temporadas, com linguagens diferentes”, opinou Stycer, que também sugeriu testar figuras diversas no comando desses programas, abrindo espaço para as mulheres.

Já para Flávio Ricco, antes de pensar nas possíveis atrações para o horário do “Domingão de Faustão” a partir de 2022, a Globo precisa ficar de olho em 2021, uma vez que há a possibilidade de Luciano Huck deixar a emissora, caso se confirme sua intenção de disputar as eleições presidenciais no ano que vem. “Se o Luciano sair, vai ser na metade deste ano, então é preciso pensar nisso”, pontuou.

Fonte: O Tempo

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