Parte dos resíduos líquidos resultantes de atividades domésticas, industriais ou agrícolas, ainda são despejados sem tratamento no Rio Salgadinho. | Foto: Saulo Mota/ M1.
‘Minha mãe me deu um rio.
Era dia de meu aniversário e ela não sabia
o que me presentear.
Fazia tempo que os mascates não passavam
naquele lugar esquecido.
Se o mascate passasse minha mãe compraria
rapadura
ou bolachinhas para me dar.
Mas como não passara o mascate, minha mãe me
deu um rio’
No poema de Manoel de Barros, o rio que passa atrás da casa é um presente que ocupa um lugar especial no afeto e memória durante a infância e juventude. Em Juazeiro do Norte, o Rio Salgadinho também já ocupou esse lugar na vida de muitos moradores, antes que a degradação ambiental, causada, em especial, pela falta de saneamento básico, transformasse a relação da cidade com o manancial.
Hoje, a condição do curso d’água além de carregar consigo a biodiversidade, também retira a possibilidade dos moradores mais jovens criarem memórias com os recursos naturais e se sentirem pertencentes ao meio ambiente. A tarefa de guardar essas recordações é encarregada aos juazeirenses que décadas atrás enxergavam o rio como um ambiente vivo.

Ponte sobre o Rio Salgadinho, em Juazeiro do Norte. Foto: Saulo Mota/ Portal M1.
As águas que eram encontro
Antônio Farias, 62 anos, ainda se lembra dos dias em que era menino e acordava às 5h para ir até a ponte que ficava próximo a sua residência junto aos amigos. “O que era bom é porque as águas eram cristalinas, as águas eram bem limpinhas. A gente via os peixes nadando a olho vivo, as piabas, via as traíras grandes e era uma bênção tomar banho naquele rio”, rememora.
O local onde ele possui essa lembrança é o Rio Salgadinho, que atravessa parte de Juazeiro do Norte. Apesar de ser conhecido por esse nome ao chegar no município, o Salgadinho é, na verdade, um trecho do Rio Batateiras, que nasce na encosta da Chapada do Araripe, em Crato.
Esse mesmo espaço, lembrado por Antônio com carinho, também era frequentado pelas irmãs Maria Aparecida, 67 anos, e Maria do Socorro, 58 anos, que em sua infância ora acompanhavam a mãe durante as lavagens de roupa à beira do rio, ora iam buscar um momento de lazer junto aos colegas e familiares.
“Antes a água era limpa, tinha umas pedronas, sabe? Tinha muita gente, bastante gente lavando roupa e eu sempre ia com ela pra lá. E tinha muita gente também, quando era no inverno, na chuva”, conta Socorro.

Parte da extensão do Rio Batateiras, em Juazeiro do Norte, antes da década de 50. | Foto: Arquivo / Demontier Tenório.
‘Meu irmão me provocava assim: a minha árvore
deu lindas flores em setembro.
E o seu rio não dá flores!
Eu respondia que a árvore dele não dava
piraputanga
Era verdade, mas o que mais nos unia eram
os banhos no rio entre pássaros.
Nesse ponto nossa vida era um afago!’
-fim do poema “Um menino que ganhou o rio”, de Manoel de Barros.
Porém, as recordações vão além da nostalgia do tempo que as águas significavam vida. Nas memórias também há o momento exato onde os moradores começaram a se afastar à medida que a poluição avançava. Segundo Aparecida, o contato com o Rio Salgadinho foi interrompido após ela ser diagnosticada com uma micose, que levou tempo para ser tratada. “Quase que não sara, viu? Tomei sete benzetacil para poder sarar essa ferida. Quase que não sara. Aí nunca mais”, lamentou.
No caso de Antônio e Socorro, as vivências foram encerradas após tomarem conhecimento de rumores sobre despejo irregular de resíduos no manancial. “Parei já com meus 14 para 15 anos, porque também o rio começou a não ser mais como era antes, a pessoa dizia que vinha lá do Crato resto dos hospitais, e a gente começou a ficar mais precavido”, relatou Antônio.
À época, apesar de afirmarem ouvir vez ou outra algum comentário sobre saneamento básico ou a prática de despejo de lixo e outras impurezas no rio, vindos de indústrias e esgoto doméstico, todos pontuaram que o tema não era tratado com seriedade. “Era falado, mas ninguém resolvia nada. Ninguém fazia nada”, frisou Aparecida.

As irmãs Maria Aparecida e Maria do Socorro, que chegaram a nadar no manancial. | Foto: Saulo Mota / Portal M1.
Anos após os desencontros, a cidade ainda lida com a distância entre a memória que parcela da população preserva de um período em que o rio era presente no cotidiano, e a necessidade de agir para que o curso d’água hoje deixe de estar na paisagem urbana somente como um “acúmulo de sujeira e mau cheiro”, um desafio que passa pelo cumprimento do Novo Marco Legal do Saneamento Básico.
Sancionado em junho de 2020, a Lei 14.026/2020 estabelece a universalização dos serviços de saneamento até 2033, com a meta de garantir que até lá 99% da população brasileira tenha acesso à água potável e 90% usufrua da coleta e tratamento de esgoto. Em Juazeiro do Norte, a Ambiental Ceará, em Parceria Público-Privada (PPP) com a Cagece, é responsável pelo serviço.

Os quatro eixos do saneamento básico no Brasil, definidos pelo Marco Legal do Saneamento. Infográfico: Bruna Santos /M1.
O curso d’água em mudança
O Rio Batateiras contempla a principal rede de drenagem que forma o Rio Salgado, denominado dessa forma após a confluência do Batateiras com o Riacho dos Porcos, em Missão Velha, na porção ocidental da Bacia Sedimentar do Araripe. “Ele [Batateiras] é responsável por receber grande parte do deflúvio nos períodos chuvosos e atualmente também recebe águas da Transposição do Rio São Francisco, por meio da estrutura do Cinturão da Águas do Ceará (CAC)”, explica o biólogo Laércio Moraes.
Segundo Laércio, estudos e relatórios técnicos indicam a poluição do trecho que corta Juazeiro do Norte, embora não seja possível determinar quando o processo se iniciou. O biólogo aponta que hoje as principais causas para o agravamento da deterioração do recurso hídrico têm responsáveis concretos. “Ausência de saneamento básico nas cidades, falta de educação ambiental dos ribeirinhos e empresas e indústrias existentes em sua extensão“, pontua.
Conforme dados do Trata Brasil, no ano de 2026, Juazeiro do Norte passou a ocupar o 81° lugar no ranking nacional do saneamento, um salto de quatro posições em relação ao ano anterior, onde estava em 85° na lista. Mesmo com o avanço, o município ainda figura na pior colocação entre as cidades do Ceará.
Se há esgoto correndo nas sarjetas em qualquer ponto da cidade, o destino final são os rios. Para André Ramos, coordenador de operações e serviços da Ambiental Ceará, a qualidade do curso d’água é um retrato do que ocorreu e ainda acontece no meio urbano. Ele argumenta que a ampliação do serviço de saneamento é uma das principais formas de reduzir os impactos ambientais e preservar o recurso hídrico.
“O rio é o ponto de destino, vamos assim dizer, de tudo que acontece na superfície da cidade. Então, o que é importante a gente frisar aqui é que não importa o local. O que interessa é que todos os locais tenham a cobertura de esgoto adequada”, defende.
Moraes também alerta para outras consequências socioambientais que podem vir a acontecer ou já acontecem devido a degradação do rio. “Contaminação direta das reservas de água superficiais e subterrâneas, maior incidência de doenças de veiculação hídrica como diarreias, hepatite A, leptospirose, esquistossomose, verminoses, dentre outras, com maior pressão sobre o sistema público de saúde, além de criar ambientes por vezes insalubres para a população que vive no entorno”, elucida.

Além dos efluentes, Rio Salgadinho é afetado com o despejo irregular de lixo. | Foto: Saulo Mota/ M1.
Para que os efluentes deixem as residências, indústrias ou empresas, sem extravasamentos ou contato com o solo, é necessário um conjunto de infraestruturas que garantam seu transporte até as Estações de Tratamento de Efluentes (ETEs). É nesses locais que o material passa por diversos processos tecnológicos antes de ser devolvido para a natureza com menor impacto. “Com condições que ele não vai impactar mais o meio ambiente ou não vai causar danos à saúde pública. Esse é o nosso principal desafio”, comenta o coordenador.
Segundo a concessionária, Juazeiro do Norte já atingiu mais de 45% de cobertura de rede coletora desde o início da PPP, firmada em 2023. O marco foi alcançado em dezembro de 2025, a partir da integração das redes já existentes e da implantação de 140 quilômetros de novas tubulações.

Seis bairros já passaram de 90% da disponibilidade de rede. Infográfico: Júlia Marques em colaboração ao M1.
Os passos na ampliação da rede de esgoto e os outras ações que compõem o saneamento são considerados fundamentais para reverter a situação do trecho do Rio Batateiras. Porém, segundo Laércio, a despoluição do manancial depende da construção de uma política pública ambiental que envolve diferentes atores nas esferas municipais, em especial nas cidades que serpenteiam o rio; regionais e estadual para preservação e manutenção da qualidade da bacia hidrográfica como um todo.
No trecho específico das águas em Juazeiro do Norte, o debate é recente. Somente a partir da década de 1960, a cidade começou a receber projetos da Companhia de Água e Esgoto do Nordeste (CAENE), que levou água encanada a parte das residências. Segundo o historiador Roberto Júnior, a pauta do saneamento demorou mais alguns anos para avançar e só começou a ganhar forma nas décadas seguintes.
“Juazeiro veio ver projetos de esgotamento sanitário com tratamento da água a partir da década de 90. Antes disso, a gente tinha o processo de destinação desses esgotos, desses efluentes, por redes de drenagem, que não faziam o tratamento dessa água, somente faziam a destinação”, explica.
Esse processo ocorreu em paralelo ao crescimento da cidade e à ausência de documentos de planejamento urbano atualizados. O primeiro Plano Diretor Municipal (PDM), que trata da organização territorial, só foi instituído em 2000. Depois, passou mais de 20 anos sem revisão, sendo discutido na Câmara dos Vereadores e sancionado pelo Poder Executivo apenas no início de 2026.

Águas que eram limpas, hoje são turvas. | Foto: Saulo Mota/ M1.
A cidade que aconteceu às margens
As lembranças de quem cresceu junto ao Rio Salgadinho também são prova viva das consequências sofridas pelos moradores devido a falta de políticas públicas de organização territorial e preservação ambiental. Maria Aparecida se recorda das enchentes que afetaram a antiga comunidade conhecida como “Boca das Cobras”, um assentamento informal formado na década de 1960, nas margens da Avenida do Agricultor e no trecho do Rio Batateiras que passa pelo município.
“Aí quando o rio dava as enchentes, alargava aquelas casas ali todinhas. Cheio de água, tudo tomado de água. Mas aí depois entrou um prefeito, não sei quem foi, tiraram eles, o pessoal de lá, que era muito sofrido aquele pessoal”, relembra.
A comunidade mencionada por Aparecida foi objeto de estudo dos arquitetos e urbanistas Ana Clara Benjamin e Samuel Melo, na pesquisa ‘A produção do urbano periférico em Juazeiro do Norte–CE: da Boca das Cobras à Vila Três Marias’, apresentado no 1° Colóquio Integrado do Departamento de Construção Civil.
De acordo com Ana Clara, a ocupação da antiga Vila Jaime de Melo, conhecida como “Boca das Cobras”, se deu em um terreno difícil de urbanizar. O conjunto de moradias eram construídas com materiais precários, como papelão, taipa e alvenaria sem acabamento, em uma área sem saneamento básico, coleta de lixo ou rede elétrica.

Entulhos, lixo e carcaças de animais são cenas comuns no trecho do Rio Batateiras que corta Juazeiro do Norte. | Foto: Saulo Mota/ M1.
“As pessoas vinham para Juazeiro por questões religiosas, por expectativas de emprego e acabavam ocupando a cidade nos locais que conseguiam. Essa área era uma área de baixa, próxima ao Rio Salgadinho. Então, era uma área difícil de urbanizar, digamos assim, justamente porque tinha um terreno, um solo mais úmido”, explica.
Sem acesso a políticas públicas, os moradores improvisavam soluções para atender suas necessidades básicas, uma delas era o descarte de dejetos e lixo nas águas do rio ou na avenida. “Lá eles não tinham acesso ao saneamento básico de forma autônoma. Então, por exemplo, o banheiro lá não tinha. Eles faziam as necessidades em sacolas. Isso está registrado nas pesquisas”, complementa.
As famílias foram removidas entre 2003 e 2008 pelo poder público, sendo realocadas para o bairro Vila Três Marias. Um dos pontos destacados por Clara é o estigma frequentemente associado a comunidades sem acesso ao saneamento básico. No caso da “Boca das Cobras”, os populares eram muitas vezes vistos como pessoas “sujas” ou responsáveis diretos pela degradação do espaço, que já atravessava problemas decorrentes da falta de infraestrutura em outros pontos do município.

Remoção da comunidade perpassou pelas gestões dos ex-prefeitos Carlos Alberto da Cruz e Raimundo Macêdo. | Mapa: Ana Clara e Samuel Melo.
“O que a gente deveria pensar em termos urbanísticos, de planejamento urbano, de direito à cidade, seria trazer dignidade para essas pessoas, dentro desse contexto territorial, onde elas já estavam instaladas, onde já tinha gerado um processo de identidade, poderia inclusive existir um processo de educação ambiental para que essas pessoas pudessem ter uma relação mais saudável com esse organismo vivo, com esse rio”, opinou a pesquisadora.
Assim como os demais especialistas ouvidos pelo Portal M1, Benjamin também sinaliza que o saneamento básico deve estar aliado a outras estratégias, que envolvem a legislação urbana, maior participação popular e educação. “Uma das formas realmente de a gente conseguir exercer um planejamento urbano, uma perspectiva do direito à cidade, é chamando o cidadão para perto, é trazendo essa educação ambiental, essa educação sobre patrimônio”, sugere.
Nas águas, ainda é possível formar novas memórias
Mesmo após deixar de ser um espaço de encontros é possível construir novas memórias do Salgadinho, ainda que diferentes das de Antônio, Socorro e Aparecida, e reconstruir a relação de pertencimento do curso d’água à cidade. O biólogo Laércio aponta a possibilidade de despoluição com a expansão do saneamento básico, a recuperação de áreas de preservação permanente, o desassoreamento de trechos, o monitoramento da qualidade da água e o controle do desenvolvimento urbano.
Destaca-se que para o especialista em biologia, além das ações já mencionadas, outra forma de contribuir para a despoluição é por meio da correta implementação do PDM, em especial nos setores de licenciamento ambiental e fiscalização do descarte por parte das pessoas jurídicas. Conforme noticiado pelo M1, a cidade possui mais de 50 empresas que lançam esgoto diretamente no solo, sendo 25 classificadas como de alto potencial poluidor.
“Se há saneamento e licenciamento ambiental rigoroso para as empresas, há tratamento de efluentes e por isso a capacidade de depuração do corpo hídrico (recuperação natural da qualidade) é bastante elevada, o que garante a sustentabilidade ambiental do manancial”, reforça Laércio.

Infográfico: Júlia Marques/ Colaboração para o M1.
Ainda assim, a recuperação do recurso hídrico precisa de algo a mais. Para o coordenador de operações da Ambiental Ceará o processo passa por uma atuação conjunta entre poder público, empresas e população.
“Importância, do seu papel também, enquanto cidadão, de se conectar à rede coletora de esgoto, porque tem que ser um conjunto. O município tem que atuar, a Cagece atua, nós estamos atuando, mas a população também tem um papel fundamental nessa mudança nessa virada de chave, para que a gente consiga promover uma sustentabilidade maior e um rio muito mais limpo aqui no nosso município”, reforça André.
Com a atualização do PDM, a cidade possui novas diretrizes que integram o uso do solo, habitação, meio ambiente, saneamento e mobilidade urbana. Entre as ações previstas para o Rio Salgadinho a serem desenvolvidas nos próximos anos estão o reflorestamento das margens; a elaboração de estudos técnicos para a criação de um parque linear nas margens do Rio Batateiras entre o município de Juazeiro do Norte e Crato; e a criação de um Fundo Municipal dos Recursos Hídricos voltado para a revitalização da extensão do corpo d’água.
O documento também norteia para a elaboração de um programa de compensação municipal por dano ambiental aos recursos hídricos com a previsão de notificações e multas para pessoas jurídicas que comprometerem a qualidade ambiental do curso d’água. Além disso, propõe:
- Implementar o Parque do Rio Salgadinho nas adjacências do trecho do Rio Batateiras que percorre o município;
- Promover medidas e ações para a continuidade e expansão do Parque das Timbaúbas até o Rio Batateiras/Salgadinho, incluindo a desapropriação de terrenos e residências da área de continuidade;
- Limitar as margens do Rio Batateira/Rio Salgadinho, do Riacho dos Macacos e do Riacho das Timbaúbas como Área de Preservação Permanente (APP) de interesse social.
De presente, eles querem o rio

Trecho do Rio Salgadinho, em Juazeiro do Norte. Foto: Saulo Mota / M1.
Assim como Manoel de Barros escreveu sobre um menino que recebe o rio de presente, Antônio, Socorro e Aparecida, também desejam sentir novamente que foram presenteados. “Eu vejo aí muitos lugares que o rio foi recuperado. Então, quem sabe, se também um dia não vai ser recuperada a beleza do Rio Salgadinho, porque também era muito bom ter acesso a este rio”, deseja Antônio.
Enquanto os caminhos são traçados e desenvolvidos, resta aos juazeirenses relembrar o que o Rio Salgadinho já foi. Porém, conforme apontaram os profissionais, mais do que recordar, é preciso transformar as boas lembranças – e também aquelas que foram tiradas –, em cobrança aos agentes responsáveis e em cuidado nas ações individuais e coletivas, para que novas gerações também possam construir suas próprias histórias de pertencimento ao meio ambiente. “Para ele ficar como antes, a água limpinha”, como bem disse dona Aparecida.
